Pecuária

Raça Brahman celebra 25 anos de sucesso no país

 

Criadores de gado Brahman comemoram em 2019 o “Jubileu de Prata” da raça em terras verde amarelas, consolidada no mercado basicamente por ter construído um padrão próprio e oferta única.

O Brahman chega aos nossos dias mais forte, levado por selecionadores motivados e reunidos em uma entidade de classe atuante e participativa nas mais importantes mesas de discussão da bovinocultura nacional: a Associação de Criadores de Brahman do Brasil (ACBB), com sede um Uberaba (MG). Mas os motivos são muitos para explicar o sucesso desse gado, concebido por norte-americanos há mais de 100 anos, presente em mais de 70 países e detentor do título de o “Zebu Internacional”. Ao longo de sua jornada pelas fazendas nos cinco continentes onde é criado, ele viabilizou a produção de carne vermelha de qualidade e em escala, nas regiões mais adversas.

O Brahman foi sintetizado a partir das raças zebuínas Gir, Nelore, Guzerá e Krishna Valley, nos EUA. Em pouco mais de 100 anos, ao lado de taurinos, tornou-se agente formador de outras raças sintéticas, como Brangus (Angus), Santa Gertruzes (Shorthorn), Braford (Hereford), Bravon (Devon), Brahmousin (Limousin), Charbray (Charolês), Chibrah (Chianina), Branor (Normando), Gelbray (Gelbivieh e Angus) e o Simbrah (Simental). Tal êxito se explica por imprimir características vitais para uma exploração competitiva. Além da rusticidade preponderante do zebu, o Brahman atribui fertilidade, longevidade, habilidade materna, precocidade, melhor rendimento e acabamento de carcaça, docilidade e melhor conversão alimentar.

Na Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), onde possui quase 150 mil animais registrados, e pelo seu Programa de Melhoramento Genético das Raças Zebuínas (PMGZ), a Brahman é a raça que apresenta o melhor ganho de peso, entre todas. Segundo o presidente da entidade cartorial, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges, são muitas as contribuições do Brahman à bovinocultura brasileira, desde que seu primeiro animal foi registrado, em 1993. “Por sua internacionalidade, abriu muitas portas, conferindo maior visibilidade ao trabalho que se faz aqui no Brasil, inclusive o da ABCZ”, reforça.

Para Machado Borges, a busca pela formação de um Brahman brasileiro conferiu temperamento, precocidade, fertilidade, ossatura forte, habilidade materna, aprumos, frame mais moderado, equilíbrio de costelas e cumprimento de membros (50×50%). “Quando todas essas características se apresentam, só há um modelo animal, o que resulta em rebanhos criteriosos e de produção padronizada em termos de carcaças”, explica o dirigente.

Segundo ele, o Brahman é importante nos cruzamentos, não só com as raças europeias, mas também com qualquer raça zebuína, até as de dupla-aptidão como o Sindi, em função da heterose que ela proporciona. “Estes cruzamentos têm ganhado muita força. Isso para raça é muito importante e vejo os seus criadores trabalham muito bem para isso. Outro ponto importante é a versatilidade da raça para se adaptar a diferentes modelos de exploração, o que para um País continental é decisivo”, reforça.

Quem as enfilera é Paulo Scatolin, atual presidente da ACBB. “A maciça participação no PMGZ, entre outros programas de melhoramento genético de muita credibilidade, em julgamentos de morfologia, e em estudos sobre a raça realizados por meio de parcerias com reconhecidas instituições de pesquisa, acabou por desenhar e produzir um Brahman genuinamente brasileiro”, destaca. Segundo o dirigente, “não falta reconhecimento ao nosso trabalho, uma vez que hoje exportamos nossa genética para quase toda América Latina”.

No banco de dados do PMGZ, o Brahman possui informações de mais de 342 mil animais, sendo deles 158 mil machos. São 156 mil mensurações de características relacionadas a crescimento, 40 mil de idade ao primeiro parto, 21 mil de stayability, 22 mil de perímetro escrotal, entre outras. Anualmente, pelo desempenho nessas informações, os melhores tourinhos de dois anos passam pelo crivo do Programa Nacional de Avaliação de Touros Jovens (PNAT), de modo que os brahmistas possam identificar a ponta da lança do melhoramento genético. Atualmente são nove reprodutores selecionados com sêmen coletado e disponível para uso.

Outro programa que trabalha com a raça é o levado pela Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP). A apuração de Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) pela entidade é realizada desde 2001 e anualmente publica dois sumários de touros com os melhores desempenhos. No último deles, rebanhos de 28 criatórios ofereciam suas informações para 13 características avaliadas. O Brahman ainda está sendo aferido em eficiência alimentar, ultrassonografia de carcaças e identificação genômica, ou seja, em modernas e atuais ferramentas de seleção.

Os feitos do Brahman brasileiro rompem fronteiras e chegam na “terra mãe”. Em janeiro de 2018, o reprodutor Brahman CABR Mussambê 2264 foi avaliado como o “Melhor Touro Brahman do Mundo” durante a FWSSR Brahman Show, realizada em Fort Worth, no estado do Texas (EUA). O touro brasileiro é proveniente da seleção de Casa Branca Agropastoril, de Paulo Marques. O reprodutor é de sua propriedade em condomínio com Wilson Roberto Rodrigues, Charles Maia e Paulo Scatolin.

Uma outra conquista recente e que vem agregando a participação dos brahmistas é o julgamento de animais criados a campo. “ A iniciativa é voltada a criadores que não tem tantos recursos para manter o gado em baias e que precisam mostrar a qualidade de seus trabalhos”, explica Scatolin. A iniciativa foi lançada na Expo-Zebu 2018, repetiu-se na Expo-Brahman e vai ser reforçada para a Expozebu 2019.

Uma grife de carne

E as conquistas não param aí. O Brahman nacional ganhou uma marca de carne própria. Trata-se do “Carne Brahman Beef Premium” que chegará ao mercado em 2020. O projeto da ACBB (Associação de Criadores de Brahman do Brasil) em parceria com a empresa VPJ Alimentos, foi lançado durante a 14ª ExpoBrahman, que aconteceu no ano passado. O objetivo do programa em torno de uma marca de carne própria é estimular ainda mais o cruzamento industrial com a raça.

Por meio da inseminação artificial ou de touros em cobertura a campo, o Brahman está sendo introduzido em fêmeas 1/2 sangue europeu. A produção oriunda será a base do programa. Segundo o diretor da VPJ, Antônio Augusto Rodrigues Miranda, “as carcaças serão certificadas no abate por uma empresa especializada que as selecionará por qualidade”. A base do protocolo consiste em animais ½ sangue Brahman, machos castrados ou fêmeas com idade no abate de até 24 meses, com bom acabamento e gordura de cobertura mínima de 4mm. “Esta carne será classificada em duas categorias. Uma com maior marmoreio e outra mais magra, porém com maciez garantida”, reforça Miranda.

Negócios aqui e lá fora

Outra conquista dos brahmistas brasileiros são as crescentes exportações. Eles possuem negócios frequentes com Bolívia, Paraguai, Argentina, Equador, México, Guatemala, Costa Rica, Panamá, Vietnã e até para Colômbia. Segundo dados de 2017 da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), a Brahman foi a segunda raça que mais exportou sêmen, com quase 28 mil doses vendidas, perdendo somente para a Nelore. Potrém, vale destacar que foi a única que mais que dobrou em volume de negócios. “Isso significa que o Brasil alcançou um modelo animal de muita excelência e por isso fez, por exemplo, o Campeão Mundial da raça, em 2018”, destaca Paulo Castro Marques, titular da Casa Branca Agropastoril e selecionador de Mussambê.

O brahman brasileiro é produto do cruzamento de linhagens provenientes do EUA, Paraguai, Colômbia, África do Sul e Austrália. Assim resultou animais de aprumos mais corrigidos, assim como prepúcio mais curto e mais próximo do abdômen, tornado os produtos muito mais aptos ao trabalho em propriedades de modelos extensivo sob forte exigência térmica. Além disso melhorou a carcaça, trazendo para um frame mais moderado em relação ao norte-americano, com as mesmas aptidões frigoríficas, porém mais precoce.

“Quem utiliza o Brahman, não deixa de usá-lo nunca mais”, garante Daniel Dias, brahmista do Estado do Pará e detentor de um dos maiores rebanhos comerciais de fêmeas abrahmadas do País. Antes da raça norte-americana, a fazenda trabalhava com Santa Gertrudis, que é uma raça sintética, onde o zebuíno formador é o Brahman. “Decidimos investir no zebu e, por coincidência, na época o Brahman estava chegando no Brasil. Um dos objetivos comerciais da fazenda sempre foi a venda de touros. Para comprovar a qualidade da raça fizemos cruzamentos de touros Brahman com vacada comercial zebuína. Este trabalho alavancou nosso negócio com tourinhos. Com o tempo a vacada de campo, por meio de absorção, virou uma vacada Brahman sem registro”, relata.

O Brahman brasileiro, ainda segundo dados da Asbia, produziu 75 mil doses de sêmen em 2017 (ainda não foram divulgados números de 2018) e é a quarta raça mais utilizada no cruzamento industrial no Brasil, com a inseminação artificial; ou seja, sem considerar a ampla atividade na cobertura a campo. Nos leilões realizados em 2018 com venda de seus produtos, a raça registrou valorização superior a 50%, em relação a 2017; comprovando o novo momento de expansão da raça.

Texto: Ivaris Júnior • Fotos: Divulgação

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