Negócios

Dedo de prosa: Laura Barcellos Antoniazzi

Desde quando foi criado, em 10 março de 2003, o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) tornou-se uma referência em estudos e pesquisas acerca das questões politico socioeconômicas relacionadas ao agronegócio brasileiro.

O resultado desse trabalho é materializado em informações que podem antecipar as tendências no plano da produção e do comércio de produtos agrícolas. O repórter Fábio Moitinho conversou a pesquisadora que coordena a temática agricultura, comércio e sustentabilidade no instituto.

Revista Rural – Por que a sustentabilidade tornou-se uma das bandeiras que o Icone passa a levantar?

Laura Barcellos Antoniazzi – O Icone surgiu para trabalhar com temas internacionais do agronegócio com intuito de aumentar a participação dos produtos agro brasileiros no mercado internacional. No começo, o foco era muito voltado para assuntos econômicos e comerciais, como disputa comercial entre países, era muito ligado na agenda de negociações multilaterais da Organização Mundial do Comércio (OMC). Com o passar do tempo, as questões ambientais e sociais, em especial, as ambientais, ganharam um peso muito grande na agenda internacional. Isso veio incorporar as análises ambiental e social. Foi uma própria demanda do mercado internacional.

Rural – A partir do tema sustentabilidade o Icone elaborou desde 2007 o modelo brasileiro de uso da terra, ou como foi nomeado oficialmente ‘Brazilian Land Use Model – Blum’. Do que se trata esse modelo?

Antoniazzi – O Blum foi uma ideia de melhorar as projeções da agricultura no Brasil. Em outros países, principalmente nos Estados Unidos da América (EUA), que é uma referência nisso, já há institutos que fazem essas projeções para a agricultura. Isso é muito importante para o desenvolvimento de políticas e esclarecimentos à sociedade sobre os rumos da agricultura do país. Nesse sentido queríamos implantar essa linha de estudo aqui no País. Só que, diferentemente dos EUA, no Brasil temos a expansão da área agrícola. Nesse sentido, a agricultura norte-americana fica às voltas tão somente sobre a produção e produtividade, pois não há a questão de aumentar a área agrícola. Esta, lá, é dada, e pode ser usada total ou parcialmente, dependendo de como estiverem os preços. Portanto não há avanço sobre áreas novas. Agora, aqui no Brasil, é outra realidade, porque a expansão da área agrícola é uma questão importante. Com base nisso, criamos o Blum, que nada mais é que uma adaptação do modelo de projeção americano para a realidade brasileira, onde é possível se estabelecer a expansão da área agrícola. Com isso esse modelo brasileiro tem uma interface maior com a conservação ambiental, e com uma área de ciências ambientais que é diferente das ciências econômicas e estatísticas, que quer saber quanto de vegetação nativa existe no Brasil e como se dá esse avanço no País.

Rural – Quais as linhas de pesquisas utilizadas para a criação do modelo brasileiro de uso da terra?

Antoniazzi – Temos dentro da equipe de modelagem econômica três pesquisadores que trabalham com toda essa parte de oferta e demanda de produtos agrícolas. Há também um especialista em grãos, outro em carnes e outro em cana-de-açúcar. Nesta última, por exemplo, incorporamos não só a produção de açúcar e etanol, como também a produção de bioeletricidade. Dentro da soja, também foram incorporados levantamentos sobre o biodiesel. Então, além dos produtos agrícolas, como produtos de alimentação e insumos agrícolas, há também a parte da bioenergia compondo as análises. Tem uma equipe que colabora com os estudos, liderada pelo professor Gerd Sparovek, da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ (Esalq), que trabalha com o Sistema de Informações Geográficas (SIG). Há uma coleta de mapas de diversas fontes que, no final, são definidas as áreas que estão disponíveis em diferentes regiões, com vegetação nativa, que já foram transformadas pela ação do homem ou que possuam aptidão agrícola. Todas essas informações são calibradas junto com as equações de oferta e demanda, e, daí, temos os resultados de projeção da agricultura de dez anos para frente.

Rural – Quais resultados podem ser destacados pelo Blum?

Antoniazzi – A primeira aplicação foi no estudo de baixo carbono coordenado pelo Banco Mundial, feito em quatro países em desenvolvimento, incluindo Brasil. A pesquisa era para traçar cenários de desenvolvimento da nação considerando políticas de baixo carbono, no qual trabalhamos especificamente na parte de LUCF (Land Use Change and Forestry) [Mudança de Uso da Terra e Florestas]. O Blum foi usado fazendo uma projeção tendencial, um cenário de referência de como a agricultura cresceria. Aí, considerando a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da população, dentre outras referências gerais da economia. Quanto aumentaria de área para todos os produtos como arroz, feijão, milho, soja, pastagem e cana-de-açúcar em uma projeção até 2030 e um cenário de desmatamento, também dado a esse crescimento da agricultura. A partir daí, desenhamos um cenário de baixo carbono, discutindo quais seriam as medidas mais eficientes em termos de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) e rodamos o modelo novamente. Consideramos as medidas de baixo carbono, que, no nosso caso, na área de uso e mudança da terra e agricultura, há restauração completa de áreas de preservação permanente (APPs), e também a intensificação da pecuária e o aumento das áreas de cana-de-açúcar para a produção de etanol, porque isso é importante para o cenário de transportes que deve ter maior participação de combustíveis renováveis e também uma maior área de florestas plantadas para a produção de eucaliptos, focando a produção de carvão vegetal para suprir a demanda de siderurgia no País. Pela análise, fizemos um comparativo do que seria o cenário de referência e o de baixo carbono. A ideia era comparar o quanto que seria possível reduzir as emissões e o quanto seriam os custos para atingir esse cenário de baixo carbono.

Rural – Em quanto seria possível reduzir os GEEs?

Antoniazzi – O estudo foi publicado em 2010, mas iniciado em 2008, feito bem em sintonia com o governo e vários ministérios, pois era bem na época que se estavam sendo lançadas as metas de compromissos brasileiros de redução de GEEs. Em termos de redução de emissões, a opção de baixo carbono para mitiga-las era basicamente reduzir o desmatamento. Reduziu-se total o desmatamento no cenário de baixo carbono por conta da intensificação da pecuária. A restauração de APPs já diminuiria a área agrícola, o aumento da área de cana também já era uma nova demanda por terra. Aumentar a área de floresta também se trata de uma nova demanda. Tudo isso teve de ser comportado na intensificação/identificação da pastagem para não ter nenhum desmatamento comparado com o cenário de referência e, daí, houve uma redução de 63% nas emissões totais de uso da terra, o que significaria 530 milhões toneladas de CO2 equivalente. De 530 passou para 190 milhões de toneladas de carbono equivalente. O que também é interessante é ver os custos disso tudo, o que também é bastante pertinente para essa discussão de reforma do Código Florestal. O custo de restaurar todas essas áreas de preservação permanente é altíssimo. É um fato interessante, já trouxemos essa discussão há alguns anos e estamos nessa questão agora. Foram 44 milhões de hectares de APPs que não tinha vegetação nativa que foram restaurados no cenário de baixo carbono. Isso tem um custo de reflorestamento bem significativo. Se fosse pagar por toneladas de carbono, esse carbono precisaria ter um valor altíssimo para se valer esse investimento. Claro que poderia ter outras medidas de subsídios para isso.

Rural – Esse projeto pode subsidiar as tomadas de decisões do próprio governo. Diante disso, como tem sido o feedback desse estudo, no sentido de trazer a teoria à prática?

Antoniazzi – Temos uma preocupação bem grande de fazer estudos e pesquisas que sejam de fato para responder perguntas importantes para formadores de políticas e para o setor privado também. Temos tido uma relação bem positiva tanto com o setor privado quanto com o governo. O histórico do Icone é com negociações comerciais internacionais e nessa época trabalhávamos diretamente com a equipe do Itamaraty [Ministério das Relações Exteriores] que negociava na OMC. Hoje, nessa agenda diferente é outro tipo de fórum, temos contato com Itamaraty bastante forte na área de mudança do clima. Acompanhamos a equipe que participa da convenção do clima e temos um diálogo bem satisfatório com eles sobre quais são as dificuldades da agricultura em se adequar a uma economia de baixo carbono. Participamos do grupo setorial de agricultura dentro da política nacional da mudança do clima. O Brasil em 2009, às vésperas de Copenhagen, assumiu o compromisso voluntário de redução de emissão de GEEs e a partir desses compromissos foram criados grupos para se discutir a diminuição do desmatamento no Cerrado, a Amazônia, a agricultura, a siderurgia e o setor energético. Participamos, ao longo de todo ano de 2010, desse grupo de trabalho para elaborar de política nacional de mudança do clima na área de agricultura. Recentemente, o André Nassar [diretor geral do Icone] participou de uma audiência pública no Senado, a convite do senador Cristovam Buarque para discutir expansão da agricultura, conservação ambiental e segurança alimentar, que é parte de um processo preparatório para a Rio + 20. Através de diversas formas, nossos estudos e pesquisas, contribuem para a formação da política nacional.

Rural – Em relação à agricultura sustentável, há quem afirme que ela já é feita a muito tempo no Brasil. Qual sua opinião sobre o jeito de se fazer agricultura hoje no País?

Antoniazzi – Muito antes de se falar em sustentabilidade, de um jeito ou de outro, os produtores sempre tiveram essa preocupação, porque a agricultura depende de recursos naturais, da terra. Pela própria natureza da profissão, da atividade, o produtor rural é sensível à conservação ambiental. Claro que isso ao longo do tempo foi ganhando roupagem diferente, a questão da pesquisa, a ciência foi evoluindo em relação ao assunto e isso foi passado aos produtores, via extensão rural. É um processo em constante desenvolvimento e aprimoramento. Essa questão da sustentabilidade tem muito a ver com se manter as características de produção ao longo do tempo. Em agricultura, por exemplo, temos a conservação do solo. Por que um produtor tem de praticá-la na propriedade? Porque o solo é a base da agricultura, se ele não o conserva, há erosão, perda e empobrecimento de solo e isso reflete na produção. O que pode ocorrer também, em casos do solo se exaurir, é do produtor optar por uma nova área. Uma situação que, conforme vai tendo mais restrição de terra, gera menos possibilidade de mudar de área. Nos últimos dez anos formou-se o consenso de que não há terra à vontade aqui no País. Está cada vez mais forte essa ideia de que temos uma limitação que temos de cuidar bem do espaço onde cultivamos. Está aí a raiz o debate na agricultura brasileira: produzir com menos impacto ambiental e o máximo possível em uma menor área. A questão da produtividade é o ponto chave.

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