Edição do Mes Pecuária

Produtor aposta com sucesso no queijo de ovelha

Deixar a vida agitada de uma cidade grande para trás, se mudar para o campo e ainda de quebra começar um negócio próprio e diferenciado. O que para muitos pode soar como ousadia ou um “eu nunca faria”, para os casados Ricardo e Maria Clara Rettmann se tornou uma realidade. Questionando-se sobre a vida que levavam no Rio de Janeiro, e com a chegada do primeiro filho em 2015, eles optaram no ano seguinte pela mudança de vida, mesmo tendo propostas de emprego em locais como São Paulo e Brasília. “Queríamos nossa família mais perto da natureza, para poder criar a criança de uma forma mais leve”, diz Ricardo. Aliado a isso, o casal sentia falta de mais produtos e produtores artesanais no mercado, e com o desejo de produzir alimentos de forma consciente e sustentável, surgiu a ideia de fabricar queijo de ovelha. Nascia assim a Queijaria Rima. 

Ricardo Rettmann

Para tal mudança, o cenário escolhido foi o Sítio Santa Fé, adquirido pela família do Ricardo em 1986 e que está localizado na cidade de Porto Feliz, a aproximadamente 117 km da capital paulista. “Em 1997 meu pai começou a criar ovelha, mas voltada para corte. Já há 12 anos ele fez o primeiro embrionário de queijos, a partir de 100 animais comprados em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Não deu certo, mas os animais continuaram na propriedade”, comenta.

Mesmo com um norte já desenhado por experiências do passado, o casal Rettmann precisou começar seu negócio do zero. E para que desse certo, dividiram suas funções. Maria, formada em jornalismo, se tornou a responsável pela queijaria, enquanto Ricardo, bacharel em gestão ambiental, ficou encarregado da produção das ovelhas, além da manutenção do sítio. “Quando optamos pela mudança, partimos em busca de conhecimento sobre toda cadeia. Então, por dois meses viajamos por Portugal e Espanha, fazendo cursos e nos preparando para a nova realidade”, declara o produtor. 

Com tudo bem definido, Rettmann comenta que a parceria entre o casal é bem estruturada e ambos funcionam como cliente um do outro. “Isso porque a Maria necessita ‘comprar’ o leite que eu produzo, enquanto eu preciso dos queijos fabricados por ela para vender”.

A todo vapor

A Rima foi fundada em 2017, e a propriedade tem 25 hectares, com 1,5 ha de pasto, onde diariamente 80 animais ficam dispostos numa área de 130 m², número bastante satisfatório e que não seria possível numa produção de larga escala. “Nosso plantel atual conta com 450 ovelhas da raça francesa Lacaune, e destas, 130 estão em lactação. Colocamos no pasto somente as prenhas, filhotes já desmamados e os machos, no início da manhã ou final da tarde, quando a temperatura está mais fresca”. Segundo Rettmann, no verão esta é basicamente a alimentação delas. “Damos um pouquinho de ração no fim do dia para melhorar a parte nutricional e pronto”.

O produtor revela que o custo de manutenção do pasto é baixo, e possui alta qualidade nutricional. “Conseguimos até 12% de proteína”, diz. No sítio, o tipo utilizado é o Áries, da Matsuda, que foi desenvolvido exclusivamente para a utilização em ovinos. “Pela característica destes animais, o pasto necessita ser baixo e este tem dado certo. Ele é exigente em adubação, então quando as ovelhas saem, nós roçamos e colocamos ureia a lanço”, comenta. 

No processo, os cordeiros ficam com as mães até a desmama, deixando-as assim, menos estressadas. Isso faz com que a qualidade do leite aumente, segundo o produtor. “Nossos produtos são artesanais e feitos a partir de 100% do leite de ovelha, ou seja, preciso ter matéria-prima da maior qualidade”.

Ricardo conta que por ser uma pequena produção, a ovelha se torna uma grande aliada nos negócios. “O leite dela é de mais fácil digestão, quando comparado ao da vaca, cabra e búfala. Além disso, é um animal mais dócil de se manejar no dia a dia”. Atualmente, a média diária de produção na Rima é de 1,3 litro de leite, número que para o produtor ainda pode melhorar. “O ideal seria chegar perto dos dois litros/dia”. Mas, se por um lado ainda há aonde ajustar, por outro, os dados mostram a diferença na ponta do lápis para a criação deste animal. Uma ovelha consome quatro quilos de alimento por dia, enquanto uma vaca chega a 50 kg, por exemplo. Com isso, consegue-se alimentar aproximadamente 12 ovelhas para cada vaca. A comparação se torna ainda mais significativa se analisarmos a quantidade de litros de leite necessários para a produção de um quilo de queijo. Em média, são três litros de ovelha, contra dez de vaca.

Pensando no bolso, hoje um produtor de leite de vaca recebe entre R$ 1,35 e R$ 1,45 por litro. Verticalizando a produção, Ricardo vende um litro de leite de ovelha diretamente ao consumidor por R$ 12,00. Esta, inclusive, é uma das principais vantagens da criação de ovelhas leiteiras em comparação a produção do leite tradicional.

Conquistar território

Apesar dos números atrativos, o desafio da família Rettmann é grande. A pequena quantidade de produtores desta iguaria, acarreta na falta de conhecimento e interesse por parte do público em querer comprar os produtos derivados da ovelha. E não se trata apenas do queijo, pois, na própria Rima, por exemplo, também são feitos iogurtes, coalhadas secas, além de doce de leite. “Nosso trabalho também passa pela divulgação do que produzimos, para conquistar clientes e aparecer mais no mercado como um todo”, diz o proprietário, que lembra que no começo produziam os queijos, partiam para eventos como feiras artesanais, e praticamente davam os produtos, em busca de atrair o público e apresentar o serviço. “Foi um trabalho necessário e que hoje nos dá retorno”. O efeito disso é visto no balanço realizado desde o começo da atividade. Rettmann comenta que em 2017, primeiro ano de funcionamento, as contas fecharam no vermelho. “Foi a fase de investimento, estudo, aprimoramento de técnicas e marketing inicial do negócio”. No ano seguinte, o equilíbrio financeiro tomou conta, dando energia para que os donos não desistissem da ideia e continuassem o trabalho. Trabalho esse que monetariamente foi recompensado no fechamento de 2019, com o negócio no azul, dando lucro mensal. “Sei que podemos melhorar, e me baseio muito em planejamentos e planilhas para isso. Sou muito o cara dos números, e ver o saldo no positivo ao final do terceiro ano de funcionamento foi bastante satisfatório”, declara.

Atualmente a linha de clientes da queijaria se divide em quatro tipos. O primeiro é a venda para pessoa física, realizada de porta em porta e também através das encomendas feitas pelo site, que são entregues semanalmente; depois vem a linha dos empórios, que cada vez mais tem buscado produtos artesanais como este; o terceiro ponto e considerado principal são os restaurantes, que representam um grande avanço de negócio para os produtores; e por último, as pessoas que vão até o sítio e compram direto na lojinha. “Todo sábado realizamos cafés da manhã para quem quiser vir conhecer todo sistema de produção e degustar os queijos. Tem dado certo, e as pessoas ao final compram para levar para casa”. Segundo Ricardo, está atração in loco representa hoje 10% do faturamento da Rima.

Para 2020 as projeções são ainda mais positivas, com plano de investimento em genética, melhor eficiência do pasto, entre outros pontos, para continuar crescendo. “Precisamos ir até aonde dá, para não fugir do controle, uma vez que chegamos a um ponto que temos mercado, mas não leite, devido a falta de parceiros que o produzam”. Com isso, o produtor comenta que vende plano de negócios para terceiros, exatamente a fim de arrumar mais pessoas produzindo leite de ovelha e participando do mercado. “Se tiver mais produção, com certeza conseguirei crescer o negócio da queijaria para este ano”, diz.

Confira reportagem completa na TV Revista Rural:

 

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