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PRAGAS DA SOJA - O CAMINHO É O EQUILÍBRIO
rev 140 - outubro 2009

Antes de se pensar em aplicar defensivos na lavoura, o produtor deve conhecer bem a praga para não acabar matando os inimigos naturais dela ou, pior, contribuir para a resistência dela. A ideia primordial para o sucesso no manejo com insetos-praga da lavoura de soja se resume numa palavra: equilíbrio. “O produtor deve conhecer bem a praga que está presente na lavoura dele, e saber diferenciar o que é e o que não é praga, pois os inimigos naturais dela também estão presentes no campo”, alerta o pesquisador da Embrapa Soja, especialista em entomologia (Londrina/PR), Flávio Moscardi. “Ao ver um inseto na lavoura o produtor já tende a usar logo um inseticida nela, isso prejudica o manejo com a praga, pode matar os

inimigos naturais dela e, ainda, pode contribuir para a resistência dela”. De acordo com o pesquisador, pragas, que antes eram tidas como secundárias, passaram a ser de importante controle em função do desequilíbrio causado pela aplicação desnecessária de produtos que acabaram afetando os predadores de lagartas e percevejos, por exemplo – estes vilões da produtividade da soja.
Assim, apesar dos danos causados na cultura serem, em alguns casos, alarmantes, não se indica a aplicação preventiva de produtos químicos, pois, além do grave problema de poluição ambiental, a aplicação desnecessária elevará os custos da lavoura e contribui para o desequilíbrio populacional dos insetos.
O controle recomendado por Moscardi tem de se basear no nível de infestação na lavoura, com uma identificação minuciosa sobre os demais agentes que possam estar presentes no campo. Inspeções regulares pela plantação, com um apoio técnico especializado, servirão de base de informação para se traçar o manejo mais adequado na lavoura, inclusive na identificação do que é praga e o que não é.
Entre os principais insetos-pragas, os de importância regional e os que causam severo dano à lavoura estão a lagarta-da-soja, percevejos, o tamanduá-da-soja, corós e a mosca branca.

Lagarta-da-soja

A Anticarsia gemmatalis pertence à categoria de praga que danifica as folhas da planta. A forma de controle mais eficiente se faz pela ação do Baculovírus. Segundo o trabalho desenvolvido por Moscardi, esse inimigo da lagarta é um vírus de ocorrência natural e específico no combate exclusivo da praga. Ele mata somente este inseto e não afeta outras pragas e inimigos naturais.
O controle deve ser feito quando forem encontradas, em média, 20 lagartas grandes (maiores de 1,5 cm) por 1 metro (fileira de plantas), ou com menor número se a desfolha atingir 30%, antes da floração, e 15% tão logo apareçam as primeiras flores.
As folhas de soja pulverizadas com o Baculovírus, e comidas pela lagarta, propiciam a multiplicação do vírus no corpo dela. Após o quarto dia, as lagartas ficam enfraquecidas, deixando de se alimentar. As infectadas tendem a se deslocar para as partes altas da planta e com o tempo perdem a mobilidade, morrendo entre o sexto e décimo dia da aplicação. Depois de alguns dias as lagartas mortas apodrecem, liberando grande quantidade de vírus sobre as folhas, que serve para disseminá-lo às outras lagartas.
Produtos comerciais a base de Baculovírus são produzidos por diferentes empresas licenciadas pela Embrapa Soja e está disponível em cooperativas e revendas de insumos agrícolas. Para maiores informações, contatar a Embrapa Soja: telefone (43) 3371-6125 ou e-mail aee@cnpso.embrapa.br.

Percevejos

Podem ser considerados uma das principais pragas da cultura da soja, segundo Moscardi, e três espécies devem ter uma atenção especial: o percevejo marrom (Euschistus heros), o percevejo verde pequeno (Piezodorus guildinii), e o percevejo verde (Nezara viridula). Em certas situações, o controle químico pode ser efetuado apenas nas bordas da lavoura, sem necessidade de aplicação de inseticida na totalidade da área, porque o ataque destes insetos se inicia pelas áreas marginais, aí ocorrendo as maiores populações. Uma alternativa econômica é a mistura de sal de cozinha (cloreto de sódio) com a metade da dose de qualquer um dos inseticidas indicados. O sistema consiste no uso de apenas 50% da dose indicada do inseticida, misturada a uma solução de sal a 0,5%, ou seja, com 500 gramas de sal de cozinha para cada 100 litros de água colocados no tanque do pulverizador, em aplicação terrestre. O primeiro passo é fazer uma salmoura separada e, depois, misturá-la à água do pulverizador que, por último, vai receber o inseticida.

Tamanduá-da-soja

É um gorgulho (besouro) de aproximadamente 8 milímetros (mm) de comprimento, de cor preta com listras amarelas no dorso da cabeça e nas asas. Os danos são causados tanto pelos adultos, que raspam o caule e desfiam os tecidos, como pelas larvas, brocando e provocando o surgimento de galha. O controle químico desse inseto não tem sido eficiente. As larvas ficam protegidas no interior das galhas e os adultos, além de emergirem do solo por um longo período, ficam a maior parte do tempo sob a folhagem da soja, nas partes baixas da planta. Algumas práticas culturais podem ser utilizadas para, gradualmente, diminuir a ocorrência da praga.
Nos locais em que, na safra anterior, foram observados ataques severos do inseto, antes de planejar o cultivo da safra seguinte, deve-se avaliar o grau de infestação na entressafra. Para cada 10 hectares (ha), retirar quatro amostras de solo, centradas nas antigas fileiras de soja, com 1 metro de comprimento e largura e profundidade de uma pá de corte. Contar o número de larvas hibernantes. Para cada três a seis larvas/amostra, há possibilidade de uma ou duas atingirem o estado adulto, podendo causar uma quebra de sete a 14 sacas de soja por hectare, na safra seguinte. Em lavoura de soja já estabelecida, o controle do inseto se justifica quando a população atinge um adulto por metro de fileira, em plantas com duas folhas trifolioladas, e dois adultos por metro linear, em plantas com três a cinco folhas.
A rotação de culturas é a técnica mais eficiente, mas sempre associada a outras estratégias, como plantas-iscas e controle químico na bordadura da lavoura. Resultados recentes de pesquisas mostram redução porcentual de plantas mortas e danificadas e maior produtividade, no final do período de rotação soja-milho-soja, comparado ao monocultivo de soja.

Percevejos-castanhos-da-raiz

Há registro da ocorrência de três espécies da família Cydnidae que sugam a raiz de soja, em várias regiões do Brasil: Scaptocoris castanea, Scaptocoris carvalhoi e Scaptocoris buckupi. A ocorrência dessa praga era esporádica em várias regiões e culturas, mas, a partir da década de 1990, o problema em soja e outras culturas começou a ser mais frequente. Pode ocorrer tanto em semeadura direta, como em convencional.
Atualmente, os prejuízos causados à soja por essa praga são bastante significativos, especialmente na Região Centro-Oeste, onde as perdas de produção, nas reboleiras de plantas atacadas, variam de 15% a 70%, dependendo da época do ataque.
O manejo dessa praga é difícil e ainda não há nenhum método eficiente. O controle químico, até o momento, tem se mostrado pouco viável, em função do hábito subterrâneo do inseto, não havendo, ainda, nenhum produto registrado para essa finalidade, para a cultura da soja.

Corós

O complexo de corós (Phyllophaga cuyabana e Liogenys spp.) é um grupo de insetos que vem causando danos à soja, especialmente no Paraná, em Goiás e Mato Grosso do Sul. Ocorre, também, em Mato Grosso, no sudoeste de São Paulo e na região do Triângulo Mineiro, em Minas Gerais.
Os sintomas de ataque vão desde amarelecimento das folhas e redução do crescimento até morte das plantas e são visualizados em reboleiras. O número de pés de soja mortos pode variar com a época de semeadura e com a população e o tamanho das larvas na área. No início do desenvolvimento das plantas, uma larva com 1,5 a 2 cm de comprimento, para cada quatro plantas, reduz o volume de raízes em cerca de 35%, e uma larva de 3 cm, no mesmo nível populacional, causa redução de 60% ou mais nas raízes, podendo causar a morte da plântula (estágio inicial da planta).
O manejo de corós deve se basear em um conjunto de medidas que possam permitir a convivência da cultura com o inseto. O cultivo de milho ou outra cultura em safrinha nos talhões infestados pela praga deve ser evitado, pois a prática aumentará a população na safra seguinte. Qualquer medida que favoreça o desenvolvimento radicular (raiz) da planta, como evitar a formação de camadas adensadas e correção da fertilidade e acidez do solo, aumentará também a tolerância da soja a esses insetos comedores de raízes.

Mosca branca

A praga (Bemisia ssp.) é conhecida pela grande quantidade de culturas que ataca, e, por isso, o controle torna-se quase que impossível. Os adultos têm o dorso amarelo-claro e asas brancas, medem cerca de 1 mm, sendo a fêmea maior que o macho. A longevidade é variável e depende da alimentação e da temperatura. Os machos e as fêmeas vivem em média 13 e 62 dias, respectivamente. De ovo a adulto o inseto pode levar cerca de 18 dias, em temperaturas médias altas (32°C), podendo, contudo, se estender até 73 dias (15°C).
Em condições de alta temperatura, pode ocorrer de 11 a 15 gerações por ano. O acasalamento inicia-se de 12 horas a dois dias após a emergência, e cada fêmea coloca, em média, 100 a 300 ovos durante a vida dela.
Na cultura da soja, a mosca branca causa danos diretos pela sucção da seiva, provocando alterações no desenvolvimento vegetativo e reprodutivo da planta. Ao se alimentar, ela excreta substâncias açucaradas que cobrem as folhas, resultando na formação da fumagina, um tipo de fungo que escurece a superfície da folha e reduz o processo de fotossíntese. O que acarreta também a murcha e a queda dela, antecipando o ciclo da cultura.
Os danos indiretos da praga se dá pela transmissão de um vírus, cujo sintoma é a necrose (morte celular) da haste. Dependendo do nível populacional da mosca branca, as perdas de produção podem atingir 100%. Em avaliações realizadas em diversas lavouras de, foi possível detectar 45% de perdas de rendimento.
O controle é estabelecido por diversas práticas. As medidas de maior efetividade são a limitação das datas de plantio e a eliminação de plantas voluntárias ou daninhas, visando impedir a manutenção da população da praga. A limitação das datas de plantio reduz a possibilidade de migração do inseto em áreas de final de ciclo para áreas de início de desenvolvimento da cultura. A eliminação de plantas voluntárias de soja, provenientes de grãos perdidos durante a colheita, reduz a oferta de alimento e a persistência da praga. A eliminação de plantas voluntárias de soja pode ser realizada por processo químico (dessecação) ou pela incorporação com a grade. No sistema de plantio direto da soja, em áreas com plantas daninhas, altamente infestadas pela praga, é recomendado realizar a dessecação e o repouso da terra sem nenhum cultivo (o pousio) por duas semanas antes da semeadura.


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