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MILHO SAFRINHA II - DESAFIOS A VENCER...
rev 144 - fevereiro 2010

Excedente de produção nos estoques mundiais, preços dos mercados externo e interno desfavoráveis à venda, e a falta de espaço para estocar a próxima safra são algumas das preocupações que o produtor encontrará no mercado do milho

    O ano de 2010 começou com prós e contras para o sucesso da safrinha. Entre alguns dos aspectos positivos observados por especialistas está o clima favorável, em algumas regiões. Por outro lado, as expectativas de bons preços e o câmbio ainda são tidos como os grandes vilões da cultura. “O cenário requer cautela. A safrinha apresenta uma perspectiva arriscada, uma vez que dificilmente deve haver anos tão excepcionais em termos de clima como em 2008 e 2009. Sem falar da alta dependência de leilões para sua viabilização. Sob esse aspecto as perspectivas não são boas”, analisa o vice-presidente técnico da Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat), Elton Hamer.

    O milho, que no mês de janeiro já era ofertado entre R$ 8 e R$ 9 (a saca de 60 quilos), no município de Sorriso, em Mato Grosso, começou a ser plantado em seguida à colheita da soja (período que se concentra entre os dias 15 de janeiro a 15 de fevereiro e onde há menos riscos de fatores climáticos). Daí em diante, de acordo com pesquisadores, os plantios tardios ficam mais vulneráveis aos riscos ocasionados pelo inverno, como as geadas e a irregularidade das chuvas. Segundo o vice-presidente da Aprosmat, uma das preocupações que sempre rondou os agricultores esteve relacionada ao clima. “Ele varia ano a ano, o que ocorreu nessa safra é que se alongou o período de chuva, devido ao efeito El Niño, que concentrou chuvas em dezembro e a tendência é que normalmente se concentre, e pare mais cedo. Com isso, aqui, a probabilidade de sucesso da safrinha na colheita é grande”, diz Hamer. “Ao contrário da soja colhida, onde já houve uma redução de 10% da produtividade, evidenciada por fatores climáticos que influenciaram no enchimento dos grãos e a redução de fotossíntese”, conclui.
  
  Se o clima para a safrinha em Mato Grosso vai bem, a preocupação que paira agora nos produtores é sobre onde estocar a safrinha (uma vez que ainda existem sobras da safra passada e armazéns lotados). Os baixos preços fizeram muitos produtores repensarem sobre a área a ser cultivada. Hamer, que também é produtor em Sorriso (MT), já menciona colher em torno de 4.500 kg da safrinha. Os números são incompatíveis com anos anteriores, quando em 2008, ele colheu 5.900 kg e em 2009 só de safrinha totalizaram 6.800 kg. “A cultura da safrinha cresceu muito no Estado, devido ao crescimento da ferrugem asiática, que fez o produtor antecipar o plantio do milho, no ano de 2008, e o clima que também favoreceu. No entanto, os produtores sofrem quando o assunto é o preço do mercado. Outra desvantagem é a super safra americana que vem com tudo no mercado. Diante destes fatores, o cenário é ruim”, pontua.
    No último dia 12 de janeiro, o Departamento de Agricultura Norte-Americano (USDA) reforçou uma safra recorde de milho naquele país, superando 334 milhões de toneladas (t) colhidas na safra 2009/2010, superior em mais de 26,6 milhões de t à safra anterior. No total, a oferta mundial deste grão ultrapassará 940 milhões de t. Mesmo com a demanda de consumo, que segundo o USDA, é previsto mais de 30 milhões de t, das quais, 20,6 milhões são incrementos norte-americanos, o estoque final da safra americana deverá ser quase três vezes a produção da Argentina, outro principal produtor.
   
Para o analista da Céleres (empresa de consultoria para o mercado do agronegócio), com sede em Uberlândia (MG), Leonardo Sologuren, o cenário do mercado hoje para a safrinha é bem diferente, se comparado a safra 2008/2009. “Os estoques estão cheios, consequência, ainda da safra 2007/2008, e isso influi diretamente na área a ser cultivada. Estima-se que serão 8,1 milhões de hectares plantados na safra de verão, sendo cinco milhões de milho safrinha. Ao todo, teremos uma área de 13,1 milhões de hectares plantadas no País. Apesar destes fatores, no Estado de Mato Grosso já é previsto um crescimento de 11% na safra. No Paraná, o principal Estado produtor de safrinha, a previsão é de 5% ou até menos. No entanto, os números podem ser modificados quanto à área maior ou menor de plantio, que em algumas regiões se inicia neste mês”, diz. “O preço é uma das questões que podem influenciar bastante, e que variam de região para região, o que ainda é cedo para mencionar. Por exemplo, em Mato Grosso, o produtor primeiramente observa as condições de plantio, como custo de produção, entre outros aspectos, que antecede a colheita. De certa forma, a safrinha de lá é mais arriscada em comparação ao Estado do Paraná”, explica.
   
Para garantir preço, o produtor mato-grossense precisa exportar milho. Porém, para que isso aconteça, ele necessita da subvenção do governo. “E quando não há ajuda, o agricultor acaba não exportando. Um dos grandes triunfos do produtor é a capacidade de maior produtividade e consequentemente a redução no custo de produção”, diz. “E com a adoção de tecnologias, da implantação do sistema de plantio direto, o uso de cultivares precoces têm levado um número crescente de agricultores a investir na cultura e faz com que a safrinha ganhe cada vez mais importância no Estado do Mato Grosso e abocanhe parte dos méritos do Paraná”, conta o analista.
    Segundo o levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária do Estado (Imea), realizado em janeiro, a semeadura atingiu 2% da área total de 1,7 milhões de hectares. Comparado ao mesmo período do ano passado, o ritmo de plantio se encontra adiantado, já que em 2009 o mesmo índice de 2% só foi alcançado após o dia 29 de janeiro. A previsão é que sejam colhidas mais de 8,50 milhões de t.

Lá no Paraná, a conversa é a mesma
    Se por um lado, houve a antecipação do plantio da safrinha, no Paraná –grande Estado produtor – o atraso na colheita da soja retardou o plantio do milho, e isso pode sujeitar as lavouras a uma maior dependência dos fatores climáticos. “Na verdade, o agricultor não definiu a área que será cultivada. Mas, antecipo que haverá uma redução de 10% a 20% da área cultivada. Fatores, como o preço comercializado e o aumento do plantio em Mato Grosso foram determinantes para o ocorrido”, aponta o coordenador do departamento técnico da Coopavel, Itacir Afonso Tosin. A Coopavel Cooperativa Agroindustrial, localizada em Cascavel (PR) possui hoje 2.500 associados, sendo que quase menos da metade são produtores de safrinha, situados na região norte do Estado.
   
Já na Cooperativa Agroindustrial (Cocamar), que compreende parte também da região norte e nordeste do Paraná, no ano passado foram cultivados cerca de 173 mil hectares de safrinha. “Este ano, a área continua praticamente a mesma, pois mesmo com a falta de melhores perspectivas para o produtor em 2010, os agricultores da região não têm muitas alternativas. O trigo que seria uma opção está em declínio, com redução substancial de área cultivada de um ano para outro, devido a problemas que se repetem todos os anos, como preços desestimulantes e a falta de comprador. Depois da soja, o milho é a cultura mais importante para os produtores da região. Porém, ainda é cedo para fazer uma estimativa sobre a área a ser cultivada em 2010, mas acreditamos que se houver uma redução ela será pequena”, comenta o assessor da Cocamar, Rogério Recco.
  
  Pelo menos com relação ao preço todos concordam. Recco aponta que todos estão muito preocupados. “Em 2009, os produtores ficaram descontentes e a prova disso é que, grande parte da safra de inverno ainda está guardada nos armazéns da cooperativa, esperando por alguma oportunidade de venda”, diz. A mesma opinião é compartilhada pelo gerente de produção agrícola e engenheiro agrônomo da Cocamar, Aparecido Carlos Fadoni. “O cenário é desestimulador devido aos preços. O lado positivo é que houve queda nos custos, como o de fertilizantes que apresentaram uma redução no comparativo com o ano passado”, lembra Fadoni.
   
Para melhorar a situação dos agricultores paranaense, uma alternativa que está sendo estudada é a possibilidade do governo adquirir parte da produção por meio do Programa de Escoamento da Produção (PEP). “Já que os preços no mês de janeiro fixou ao redor de R$ 14,00, a saca. O valor é abaixo do preço mínimo e provoca prejuízo para os agricultores. Os custos de produção das lavouras para esta safra estão menores que o ano anterior, porém, se os preços continuarem nesses patamares, sendo baixos, não serão estimulantes para o produtor pensar em plantar milho”, justifica o engenheiro agrônomo José Aroldo Gallassini e presidente da Coamo (Agroindustrial Cooperativa), a maior cooperativa da América Latina, com sede em Campo Mourão (PR).
   
A área da safrinha prevista para a área da Coamo a ser semeada neste ano é de 457 mil hectares, área 12% menor que a plantada na safra anterior. “A produção esperada deve ficar em torno de 1.580.000 t, que representa 18% maior que o registrado em 2009. A área deste ano será menor e a produção, ao contrário, será maior em 2010. Quanto às lavouras da safra de verão, elas estão apresentando bom desenvolvimento e indicando perspectivas favoráveis de boa produção na safra 2009/2010 com o Brasil devendo colher, somando as lavouras de milho verão e inverno, ao redor de 50 milhões de toneladas”, estima Gallassini.

 


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