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FEIJÃO - DEU MOFO NA LAVOURA
rev 144 - fevereiro 2010

A doença fúngica vem se tornando um grande desafio para a cultura de feijão no País; e, associada às demais existentes, ela faz com que o produtor fique mais atento às exigências fitossanitárias para não sofrer na hora da colheita.
O fungo Sclerotinia sclerotiorum – causador da doença conhecida como mofo-branco – se disseminou nos feijoais brasileiros principalmente através de sementes infectadas. Ela chegou à plantação irrigada e se adaptou muito bem. Com a utilização das sementes vindas desse sistema em outras áreas, a doença se espalhou no País. “Hoje é difícil você encontrar uma região produtora de feijão no Brasil que não tenha, mesmo que num nível de infestação pequeno, a presença do mofo-branco”, declara Trazilbo José de Paula Júnior, especialista em doenças do feijoeiro e pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) – órgão vinculado à Secretaria de Agricultura do Estado de Minas. “No entanto, é possível conviver com a doença na lavoura, desde que seja seguido um manejo adequado, com rotação de culturas e controle biológico”, afirma.

A terceira safra de feijão, que vai de setembro a novembro, é a mais afetada pela doença, em função do registro de temperaturas na faixa de 15°C a 25°C, nessa época do ano. A alta umidade também favorece a proliferação do fungo.
Sem uma variedade resistente ao mofo-branco, o produtor tem de fazer o uso de um manejo adequado para a manutenção da produtividade da lavoura. A proposta é a integração de vários procedimentos para fazer com que a produção seja, de certa forma, poupada.

Semente certificada

E o primeiro passo começa pela aquisição de sementes com qualidade comprovada. De acordo com Paula Jr., alguns laboratórios estão credenciados a fazer testes de detecção de sementes infectadas pelo patógeno. “Mas nem sempre a semente certificada será sinônimo de semente sadia. Trata-se, portanto, da melhor opção de semente disponível no mercado. Em regiões não-infestadas pelo patógeno, onde o feijão vai ser plantado pela primeira vez, deve-se tomar uma providência importante: encomendar semente sadia de uma instituição de pesquisa idônea”, aconselha.
Para aquisição e manejo com as sementes, o produtor deverá tomar alguns cuidados: a) não adquirir sementes de áreas com histórico da doença; b) exigir teste de sanidade do lote de sementes; c) rebeneficiar as sementes adquiridas – o uso da mesa gravitacional, que separa as sementes por densidade, é uma ajuda adicional para eliminar sementes infectadas; d) tratar a semente com fungicidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), de preferência com mistura de produtos de ação sistêmica e protetora.

Implantação da lavoura

Em áreas com histórico de mofo-branco, deve-se evitar o cultivo de feijão no outono-inverno. O plantio de cultivares precoces na “seca” é o mais recomendado nessas áreas. “Em muitas lavouras irrigadas da região centro-sul do Brasil, a semeadura de feijão tem sido feita na segunda quinzena de julho (cultivo de inverno-primavera). Assim, na época do florescimento, a temperatura geralmente não favorece mais o progresso do mofo-branco”, avalia Paula Jr.
Algumas cultivares de feijoeiro mostraram certa tolerância à doença no campo, especialmente as de porte ereto, por permitirem maior circulação de ar e insolação, além de redução de contato da folhagem das vagens com os restos de cultura na superfície do solo. “A busca por cultivares de porte ereto é um dos alvos do melhoramento do feijoeiro. Hoje há cultivares eretas produtivas disponíveis de vários tipos de grãos, como, por exemplo, a Valente (grão preto) e a Jalo. O desafio tem sido desenvolver cultivares de grão carioca eretas que sejam tão produtivas quanto a Pérola, a cultivar preferida dos agricultores”, explica de Paula Jr.
O maior espaçamento entre fileiras e o menor número de sementes nas linhas de cultivo reduz a intensidade de propagação da doença. Em áreas com histórico da doença e em campos de produção de sementes, é recomendado oito sementes por metro (m) de sulco e 0,75 m entre as fileiras. “Dessa forma, uma saca de 60 quilos (kg) de cultivar do tipo carioca, por exemplo, que possui uma massa de 100 sementes de 25 gramas (g), aproximadamente, será suficiente para semear mais de dois hectares (ha)”, calcula Paula Jr.

Sistemas irrigados

A irrigação deve ser orientada pelo uso de equipamentos próprios para medição da água no solo (tensiômetros), que indicam o momento adequado para que ela seja feita. De modo geral, recomendam-se regas menos frequentes, como é caso de irrigações com lâminas de água grandes e esparsas.
Em áreas passíveis de inundação, uma estratégia para reduzir drasticamente o potencial de transmissão (inóculo) pelo S. sclerotiorum no solo é o plantio de arroz submerso.

Trato com o solo

O uso de calcário e as aplicações de fertilizantes contendo cálcio têm sido sugeridos como estratégia de controle do mofo-branco, considerando que o cálcio pode estimular os mecanismos de defesa da planta contra a doença. O nitrogênio (N) deve ser aplicado com critério em áreas com histórico de mofo-branco, para que não ocorra o acamamento das plantas, especialmente quando se utilizam cultivares prostradas e de crescimento vigoroso.

Rotação de culturas

Assim como o feijão, outras 400 espécies mais também são passíveis ao ataque do fungo, como a soja, o algodão, a alface, o repolho, o tomate, o girassol, o amendoim e a ervilha, além de plantas invasoras, como o picão, o carrapicho, o caruru, o mentrasto e a vassoura. Desta forma, com tantos hospedeiros, o complicado está justamente em reduzir a incidência do próprio fungo no solo.
“A infestação e a população do fungo pode ser bastante reduzida com a rotação de culturas com gramíneas e o plantio direto do feijão sobre a palhada dessecada de gramíneas”, atesta Paula Jr., “e muitos agricultores têm usado a sucessão milho-braquiária-feijão, em que a palhada da braquiária é dessecada para o plantio direto do feijão”.
No entanto a rotação de culturas por si só é limitada para o controle da doença, pois mesmo com intervalos de dois ou três anos sem o cultivo de hospedeiras, a severidade do mofo-branco pode ser alta na safra seguinte.

Plantio direto

Na lista de manejo contra o mofo-branco, também se destaca a implantação do sistema de plantio direto (SPD) na lavoura de feijão. Como os escleródios – corpos negros e duros do fungo, de cerca de um a dois centímetros, capazes de sobreviver no solo por mais de oito anos – permanecem na camada superficial do solo ao se fazer o SPD, eles poderão se degradar seja pela ação de fatores climáticos, como pela ação de microrganismos. Mesmo com um maior potencial de inóculo, o plantio direto pode propiciar maior tolerância das plantas a doenças e a formação de um ambiente mais impróprio aos patógenos, ocasionado pelo maior teor de nutrientes no solo e maior diversidade de microrganismos, que atacariam o fungo.
“A intensidade do mofo-branco é menor quando o feijão é plantado sobre palhada de milho, braquiária ou arroz, o que parece estar relacionado com a maior atividade biológica de inimigos naturais do fungo em áreas de SPD”, analisa o pesquisador da Epamig.

Controle biológico

O controle biológico de S. sclerotiorum se dá a partir de espécies que teriam potencial para serem adversários ou parasitas naturais desse fungo. Mais de 30 espécies de fungos e bactérias estão nesta lista. Entre elas, o fungo do gênero Trichoderma, que se associa aos escleródios do causador do mofo-branco, degradando-o, ou, simplesmente, impedindo-o de germinar. O desenvolvimento de Trichoderma ssp. é favorecido em temperaturas mais elevadas, acima de 25°C, em solo com bom teor de umidade.
Outro agente que está sendo estudado pela Epamig e pelas unidades da Embrapa, Arroz e Feijão, em Goiânia (GO), e Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), é o fungo Coniothyrium minitans. Segundo alguns testes preliminares, a introdução dele diretamente no solo, bem como na planta, conseguiu reduzir o número de escleródios de S. sclerotiorum no solo. O C. minitans é resistente à decomposição pela luz, porém é altamente sensível a altas temperaturas (acima de 30°C) e, portanto, pode atuar em condições nas quais Trichoderma spp. não tem sido eficiente. A temperatura ideal para o desenvolvimento de C. minitans é de 20°C a 22°C.

Fusarium

Outra ocorrência que também assola os feijoais do País é a murcha-de-fusarium, causada pelo fungo Fusarium oxysporum f. sp. Phaseoli. “Ao contrário do mofo-branco, essa doença pode ocorrer o ano inteiro”, explica Paula Jr. “Ela se inicia em reboleiras (no meio da plantação) e vai gradativamente aumentando, e em longo prazo, reduz a produtividade por planta”, alerta o pesquisador.
Os sintomas mais perceptíveis são observados na parte aérea das plantas. Nas horas mais quentes do dia, as plantas murcham, as folhas ficam amareladas, secam e caem. O sintoma mais típico pode ser visto com um corte transversal no caule, que evidencia um escurecimento interno – nessa região o fungo coloniza os vasos do caule responsáveis pelo transporte de água e nutrientes, o que causa a murcha. Temperaturas entre 24°C e 28°C, solos arenosos e ácidos e estresse hídrico favorecem o desenvolvimento do fungo.
A doença pode ser transmitida por meio de sementes contaminadas, além de o fungo poder ser transportado por enxurradas, água de irrigação e solo aderido aos equipamentos agrícolas. A intensidade da doença pode aumentar com a presença de nematóides do gênero Meloidogyne.
O controle é feito com a utilização de semente de qualidade fitossanitária comprovada e tratada com fungicidas adequados. É importante também que se evite o trânsito de máquinas e implementos agrícolas provenientes de regiões contaminadas na área cultivada. Uma vez detectada a doença, recomendam-se a eliminação de restos de cultura contaminados e a rotação de culturas por, no mínimo, quatro anos, especialmente com gramíneas. A rotação com braquiárias ou milheto pode reduzir as populações do Fusarium. Como o fungo tem baixa variabilidade patogênica e especificidade em relação ao hospedeiro, o uso de cultivares resistentes é a forma mais eficiente de controlar a doença.

Antracnose

É causada pelo fungo Colletotrichum lindemuthianum e ocorre com frequência em regiões com umidade alta e temperaturas amenas (15°C a 22°C). Dependendo da severidade, pode depreciar a qualidade das vagens e dos grãos, e é mais severa se ocorrer no início do ciclo da cultura.
Os sintomas podem ser observados em qualquer órgão da parte aérea da planta, como lesões marrom-escuras ou negras nos cotilédones (as duas “bandinhas” da semente de feijão que acabam produzindo, cada qual, uma folha primária, na germinação da semente). Nas folhas, o sintoma mais característico é o escurecimento das nervuras na face inferior dela. Nas vagens, as lesões são circulares, inicialmente de coloração marrom-clara, evoluindo para lesões deprimidas e escuras, com o centro mais claro.
O fungo sobrevive no interior das sementes e em restos de cultura por quase dois anos e pode ser disseminado, em curta distância, por ventos acompanhados de respingos de água de chuva e de irrigação. Esta última pode ser utilizada racionalmente, de modo que se evite o excesso de água na parte aérea das plantas e do solo, pois, quanto mais tempo a folhagem permanecer molhada, maior será a probabilidade de ocorrência da antracnose e de outras doenças, como a ferrugem e a mancha-angular.
O uso de cultivares resistentes e a utilização de semente de boa qualidade fitossanitária, tratada com fungicidas protetores e sistêmicos, são estratégias eficientes de controle da antracnose. Também é recomendado alternar as cultivares plantadas, evitando-se o plantio extensivo de uma mesma cultivar por várias safras consecutivas. Além disso, a rotação de culturas é uma medida importante para se reduzir a transmissão da doença, e o controle químico com fungicidas, em geral, proporciona bons resultados (em épocas favoráveis à doença, ele deve ser feito preventivamente ou após o aparecimento dos primeiros sintomas.

O mofo-branco

Inicia-se em reboleiras na lavoura, principalmente em locais de alta densidade de plantas e em plantios de cultivares de crescimento prostrado. Os sintomas, que podem ocorrer nas folhas, hastes e vagens, iniciam-se pela formação de manchas encharcadas, seguidas por crescimento micelial branco e cotonoso (assemelhando-se ao algodão), o que dá origem ao nome “mofo-branco”. A doença torna-se ainda mais prejudicial onde ocorre crescimento vegetativo abundante da cultura, pouco arejamento e penetração da luz solar, drenagem do solo insuficiente, rotações de cultura inadequadas e uso de sementes contaminadas.

Doenças que podem causar danos esporádicos ao feijoeiro, agentes causadores, sintomas, sobrevivência e meios de disseminação dos patógenos, condições favoráveis e medidas de controle.


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