Edições Anteriores

DEDO DE PROSA REINHOLD STEPHANES: CONDIÇÕES FAVORÁVEIS EM 2010
rev 144 - fevereiro 2010

“Apesar de os países fortemente afetados terem reduzido o comércio com o Brasil, praticamente mantivemos a quantidade exportada em relação a 2008, quando foi registrado recorde em volume embarcado”.“Mesmo com crise, problemas climáticos e queda na safra de grãos, o resultado representou a segunda melhor safra da história”“....a expectativa é que a produção de grãos ultrapasse os 140 milhões de toneladas, com outro recorde na safra de soja” Essa é a opinião do economista e ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Reinhold Stephanes. Neste início de 2010, ele concedeu uma entrevista exclusiva à repórter Fátima Costa e falou sobre as condições enfrentadas pela agricultura – quase dois anos após a crise financeira – e sobre as perspectivas da safra 2009/2010. Stephanes iniciou a carreira profissional, justamente, na área agrícola, tendo ocupado diversos cargos diretivos no próprio Mapa. Ainda no setor, foi secretário da Agricultura do Estado do Paraná e presidente da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober). Especializado em Administração Pública, na Alemanha, e em Desenvolvimento Econômico, pela Cepal/ONU, ele foi diretor do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em 27 de março de 2007, Stephanes tomou posse do cargo de ministro da Agricultura.

.Revista Rural – Quase dois anos após a crise financeira internacional atingir em cheio a vários setores da economia, qual é a avaliação que o senhor faz da situação atual da agricultura brasileira. O setor agrícola foi muito afetado?

Reinhold Stephanes – A agricultura brasileira não ficou isolada da crise. Apesar de os países fortemente afetados terem reduzido o comércio com o Brasil, praticamente mantivemos a quantidade exportada em relação a 2008, quando foi registrado recorde em volume embarcado. Os valores obtidos com as vendas externas tiveram redução, mesmo assim, no último mês de dezembro, o desempenho da balança foi o melhor da série histórica (1989-2009), o que já pode demonstrar recuperação. Consolidamos relação de comércio com países que compram os nossos produtos do agronegócio. A grata surpresa foi que a Ásia ultrapassou a União Europeia, como principal destino das exportações e, isso aconteceu devido ao forte crescimento do comércio com a China e a Índia. E a tendência é que continue neste ano. Com a crise, além dos problemas climáticos, especialmente no Sul do País, houve ligeira queda na safra de grãos (de 144,8 milhões de toneladas, no ciclo 2007/2008, caiu para 135,1 milhões de toneladas, na safra 2008/2009), mesmo assim, o número representou a segunda melhor safra da história. Na safra em curso (2009/2010), a expectativa é que a produção de grãos ultrapasse os 140 milhões de toneladas, com outro recorde na safra de soja. As projeções indicam condições climáticas favoráveis a uma produção suficiente para atender às necessidades internas e abastecer os mais de 180 países que compram alimentos do Brasil.

Rural – Qual o balanço que o Mapa faz da safra 2008/2009?

Stephanes – Mesmo diante de dificuldades, a safra anterior foi a segunda melhor da história, principalmente pela agilidade do governo ao ampliar a oferta de crédito no final de 2008, início da crise mundial, que motivou a retração dos bancos privados e das tradings, tradicionais financiadores da agricultura. E, apesar dos problemas climáticos, o resultado da safra demonstrou uma agricultura eficiente e a capacidade do agricultor em se recuperar diante de crise.

Rural – O que o produtor rural brasileiro poderá esperar para a safra que começa a ser plantada agora?

Stephanes – Uma projeção de aumento na produção de grãos e a previsão de condições climáticas favoráveis, inclusive para a região Sul, que sofreu muito com o clima na safra passada. As lavouras de milho, soja e arroz (que representam 90% de nossa produção de grãos) dependem de água para seu desenvolvimento. O fenômeno El Niño, que proporciona chuva nos meses de novembro a março, contribuirá para as atividades dos produtores do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Além disso, há estimativas de que o valor bruto da produção agrícola, nas 20 principais lavouras do País, neste ano, sejam 5% maiores que a safra anterior.

Rural – O “Plano Agrícola e Pecuário 2009/2010” trouxe recursos para o campo, especialmente para o chamado pequeno e médio produtor. De que forma esse plano influenciará a agricultura na safra recém-iniciada?

Stephanes – A safra iniciada em julho do ano passado, teve seu volume total de recursos ampliada em 40% pelo Plano Agrícola e Pecuário (PAP), um aumento bastante expressivo. O Ministério da Agricultura deu prioridade para setores, como a classe média rural, cooperativas e a produção sustentável. Os agricultores têm, agora, mais facilidade de crédito, com aumento do limite de financiamento e ampliação do limite de renda do médio agricultor para enquadramento nas linhas de crédito. O programa já mostra resultados positivos e isso está evidenciado nos desembolsos de crédito rural que aumentaram 20% em relação à safra passada. Apenas no Programa de Geração de Emprego e Renda Rural, o Proger Rural, reformulado para atender melhor os médios produtores, o aumento foi de 500% em volume de crédito, comparado ao acesso registrado no ciclo anterior. A preocupação do governo é exatamente que o crédito rural chegue em tempo oportuno. Por isso, o Ministério da Agricultura acompanha de perto o crédito agrícola.

Rural – Uma das questões recentemente abordadas foi com relação ao Código Florestal. Como o Ministério da Agricultura se posiciona em relação ao debate sobre a reforma do Código Florestal? Na sua opinião, foi certa a decisão do governo de prorrogar o prazo para a adequação florestal em áreas rurais?

Stephanes – Na democracia, as decisões são sempre precedidas de intenso debate. Cada grupo de interesse se posiciona e mostra seus argumentos para direcionar soluções favoráveis aos setores que representam. Mas, o consenso foi o objetivo do governo. O tempo ainda não foi suficiente para os resultados desejados. Por isso, apoiei a prorrogação do prazo para a adequação florestal em áreas rurais. Precisamos de soluções para o Código Florestal, independentes de prazos. Essa é a premissa para tranquilizar os milhões de produtores afetados diretamente pelas imperfeições do código que nós, agricultores, estamos tentando nos adequar.

Rural – O presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho da Silva, defendeu uma revisão da política cambial, dizendo que o setor agrícola está perdendo rentabilidade com o real sobrevalorizado ante o dólar. O ideal, na avaliação dele, seria que a moeda norte-americana estivesse cotada a R$ 2,20. De acordo com ele, com as cotações nos níveis atuais, girando nas casas de R$ 1,70 a R$ 1,80, os empresários do agronegócio tendem a ficar desestimulados e endividados. Isto poderá mesmo acontecer?

Stephanes – Esta é uma questão complexa. É evidente que o exportador é mais beneficiado com um câmbio a R$ 2,20. Há correntes de economistas que defendem os dois. Nós, da Agricultura, preferimos um câmbio favorável ao aumento da renda dos produtores, também pela importância do setor tanto no mercado mundial de alimentos (o Brasil é o segundo maior país exportador de alimentos), quanto no superávit comercial que o agronegócio proporciona.

Rural – No mês de agosto, o governo anunciou que queria exportar biodiesel brasileiro produzido a partir da soja. Mas, qual é a situação atual do biodiesel? O País tem como suprir as necessidades do mercado? Em longo prazo quais são as perspectivas?

Stephanes – Não há qualquer tipo de restrição em relação à exportação de biodiesel produzido no Brasil. Atualmente, o País possui capacidade instalada e autorizada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) para produzir quatro bilhões de litros de biodiesel ao ano (aproximadamente 9% do consumo atual de diesel). Desde o início deste ano, está em vigor a mistura obrigatória de 5% de biodiesel ao óleo diesel, o chamado B5 que representa consumo de 2,4 bilhões de litros de biodiesel em 2010. O levantamento de safra divulgado em janeiro pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), indica safra recorde de soja em 65 milhões de toneladas. Isso é suficiente para demonstrar a capacidade da agroindústria brasileira de exportar biodiesel. O governo tem estudado formas para aumentar a competitividade do biodiesel produzido no Brasil, também tem protagonizado fóruns internacionais para discussão de indicadores de sustentabilidade para o produto. Apesar das metas estabelecidas pelos países, a exemplo da diretiva da União Europeia para as energias renováveis, esse mercado ainda é muito restrito: os europeus como principais importadores e Estados Unidos, Argentina, Malásia e Indonésia como exportadores.

Rural – Um dado recente apontou que a agricultura foi o único setor com saldo negativo na geração de empregos. Isto corresponde à verdade? Na sua opinião, qual foi o principal fator que influenciou a agricultura a ter essa estatística?

Stephanes – O saldo negativo na geração de emprego, observado durante o mês de novembro, é resultado do comportamento típico do setor agropecuário nesse período. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o saldo da movimentação de contratação, menos as demissões daquele mês, foi de -16.628 empregos, lembrando que, em 2008, esse número foi de -50.522. Contudo, o saldo acumulado de janeiro a novembro de 2009 foi de 101.847 novos empregos o que corresponde a quase 10% do total de empregos gerados. Motivado pela crise econômica, assim como os demais segmentos, o setor agropecuário apresentou, em 2009, quadro mais restritivo na geração de empregos. Até novembro de 2008, o saldo de geração de novos empregos foi de 2,1 milhões e em 2009, a economia gerou apenas 1,4 milhão.

Rural – No setor da pecuária vimos que ao longo de 2009 muitas transformações acontecerem. Quais são os entraves que ainda impedem o País de explorar integralmente as possibilidades do mercado europeu de carnes?

Stephanes – A Secretaria de Defesa Agropecuária adotou todos os procedimentos para cumprir as exigências da União Europeia, o que foi conferido positivamente pela última missão do bloco europeu no Brasil. Reconhecemos que a dinâmica desse processo não é tão ágil na inclusão de animais aptos ao abate para produção a ser exportada. O número de propriedades aprovadas pela UE passou de 733, em dezembro de 2008, para 1.827 em dezembro de 2009, representando aumento de 150%. Essa reversão se deve à adequação brasileira aos controles de registro de propriedades e identificação do animal. A integração dos sistemas de controle é o cerne da proposta de reformulação do Serviço de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), o que permitirá ao Ministério da Agricultura comprovar o atendimento integral das exigências a que está submetido desde janeiro de 2008.

Rural – Quais as perspectivas para as exportações brasileiras de carnes (bovina, de aves e suína) em 2009? O que se pode esperar para 2010, diante das tendências observadas até o momento?

Stephanes – Os dados de novembro e dezembro de 2009 já evidenciaram forte aceleração nas exportações de carnes. A recente decisão do governo russo de aumentar as cotas de importação, a que o Brasil tem acesso, deverá reforçar essa tendência, já que a Rússia é o principal destino das exportações brasileiras de carnes bovina e suína. Além disso, sempre temos expectativas de manter o comércio já estabelecido com a União Europeia, por exemplo, e o que significa uma ampliação de importante para a carne suína brasileira.


Edicões de 2006
Volta ao Topo
PROIBIDA A PUBLICAÇÃO DESSE ARTIGO SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO DOS EDITORES