OPINIÃO
Inspeção Veicular
Você ainda vai sofrer por causa dela!

Um aviso importante aos produtores rurais de todo o Brasil proprietários de carros movidos a diesel: Não demorará muito para que a inspeção veicular obrigatória chegue até sua cidade. Hoje, ela ainda está restrita a algumas capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, mas os planos são de que num futuro próximo ela atinja todos os cantos do país. Louvável a idéia, considerando a grande preocupação com a crescente emissão de CO2 no planeta e os efeitos que isso causa no aquecimento global. Ótimo, vamos todos fazer a nossa parte!
O problema é que, para variar, a lei fica linda no papel, mas, na prática, já está se transformando num enorme pesadelo para diversos (como eu...) bem intencionados proprietários de picapes e utilitários esportivos. Digo bem intencionados porque, a princípio, todo mundo quer colaborar. Pensando nisso, levei minha Nissan X-Terra a um posto da Controlar, empresa contratada pela prefeitura de São Paulo para fazer esse trabalho. Não imaginava que algo pudesse dar errado, afinal, meu carro é relativamente novo, fez todas as revisões e manutenções previstas pelo fabricante, tem menos de 60 mil quilômetros rodados e, aparentemente, não faz fumaça além do que se espera de um veículo como esse. Me enganei. Fui reprovado na quarta medição (de um total de 10). O rapaz, muito atencioso, sugeriu que eu procurasse uma oficina de confiança para limpeza de bicos injetores e regulagem de válvula e marcasse a re-inspeção dentro de um prazo de 30 dias. Caso contrário, teria que pagar a taxa de inspeção novamente: R$ 53,00.
Como meu carro só foi mexido em oficina credenciada da marca, fui à concessionária mais próxima em busca de ajuda. Muito simpático, o atendente da oficina da Nissan disse que lá eles não faziam esse tipo de serviço e me indicou uma outra oficina para resolver o problema. Achei estranho, mas liguei para a tal oficina. Um outro rapaz, também muito simpático, me detalhou por telefone o que seria feito para preparar meu carro para a inspeção: "A gente dá uma fechada na bomba até o limite máximo para o carro continuar funcionando. Ele fica meio lerdo, sem potência. O senhor leva lá na Controlar e faz a inspeção. Depois, o senhor volta aqui que a gente abre a bomba de novo". Fiquei indignado, mais ainda quando ele me informou o precinho do quebra galho, que sairia pela módica quantia de R$ 900,00. Nem quis pensar na possibilidade de burlar a nova lei, por mais tentador que isso pudesse parecer.
Voltei na Nissan, bufando, e ouvi do mesmo atendente: "Não tem como esses carros passarem na inspeção. Ele pode sair zero daqui que não passa. Se o senhor não levar a um bombista de confiança não vai conseguir", justificou.
Sem saber o que fazer, comecei a pesquisar na internet como os proprietários de carros iguais ao meu estavam solucionando o problema. Isso só aumentou minha preocupação. Encontrei lá relatos de gente que havia feito reparos na bomba injetora e gasto mais de R$ 3 mil com isso. Puxa, gastar essa grana em um carro que está perfeito, não faz um barulhinho fora do normal e é elogiado até pelos mecânicos da Nissan? Fiquei apreensivo.
Segui com minha pesquisa e encontrei oficinas especializadas em levar carros para inspeção. Nossa, já tem isso? Tem, e eles até oferecem serviço de leva e trás, ou seja, pegam sua picape de manhã em casa ou no escritório e devolvem no final do dia "selada". Fiquei pasmo. Liguei para uma delas, credenciada da Bosh, especializada em motores MWM,... senti firmeza!... Para variar, o atendente foi uma simpatia. Disse que eu devia ir até lá para tomar um café e ele me explicaria tudo. Fiz isso.
A explanação foi extremamente técnica, pormenorizou tudo o que poderia ser feito. Deu uma avaliada preliminar no meu carro e classificou categoricamente: "Esse carro é fase 1"!!!. Carro fase 1? Explico: para prepará-lo para a inspeção, basta descarbonizar o motor, trocar o óleo e os filtros (ar, óleo e combustível), além de alguns cotovelos de mangueira e regulagem de válvula. "Com isso, ela passa com louvor", garantiu o técnico, que me cobraria algo entre R$ 700,00 e R$ 800,00.
O problema foi a ressalva que veio em seguida. "Se isso não der certo, vamos a fase 2, que é abrir a bomba injetora e fazer uma descontaminação". Bem, abrir a tal bomba injetora significa começar a brincadeira em R$ 1.800,00. Dependendo das peças que tiverem que ser trocadas (e pode ter certeza que muitas delas apresentarão esse diagnóstico...) o custo pode subir para mais de R$ 3 mil. Lembrei do cara da internet e me arrepiei. "E se eu não aprovar o orçamento?", indaguei. A resposta não foi lá tão simpática como havia sido até aquele momento: "O senhor chama um guincho e leva a caminhonete embora, pois a gente não remonta bomba danificada". Pensei um pouco, decidi dar uma de Poliana e arrisquei a fase 1. Voltei de taxi para casa com uma ingênua esperança. Não preciso dizer que, às três da tarde fui informado que meu carro não havia passado na tal fase 1, apresentando nível de emissão na faixa dos 2,2 (o limite da Controlar é 2,04). Voltei para buscá-lo decepcionado.
Naquela noite mergulhei na internet disposto a tudo. Achei umas dicas muito loucas. Para quem já não tinha nada a perder, resolvi experimentar. Um internauta listava como ser aprovado na inspeção: basta encher o tanque com diesel podium da Petrobras, rodar uns 150 quilômetros em estrada antes do horário do teste, evitar congestionamentos na volta e pimba, nota alta na inspeção. Como eu já havia feito tudo o que tinha sido previsto na fase 1 (e arcado com o custo disso), arrisquei.
Tudo tinha que ser bem cronometrado (a viagem, o retorno a São Paulo, a chegada na Controlar no horário certo). Fui ao posto BR mais próximo do itinerário que havia traçado. Ao chegar lá, descobri que não é qualquer posto BR que tem o diesel aditivado. Lá só tinha biodiesel. Pensei: biodiesel deve ser menos poluente que o outro né? Errado, além de aumentar visivelmente a fumaça, deixou um cheiro desagradável ao redor do carro e elevou a medição de 2,2 do dia anterior para 3,2. Outra reprovação humilhante.
Vendo minha reação, o técnico da Controlar, enternecido, me chamou num canto e disse: "Leva numa oficina. O carro tá legal. Se fechar mais a bomba ele passa". Nessa hora (desculpe a gíria) eu pirei na batatinha! Até gente da Controlar me instruindo a burlar a lei?
Aqui começa a nossa reflexão. Que tal começarmos esse projeto melhorando a qualidade do nosso combustível? Não se engane. Não é o caminhão, o ônibus ou a caminhonete que polui. A fumaçona que vemos sair pelos escapamentos é fruto de uma infinidade de impurezas presentes em nossas melhores marcas de combustível e que, inclusive, estragam nosso carro.
Está bem, digamos que eu (e todos os proprietários de picapes e SUVs à diesel) gaste os tais R$ 3mil (ou mais) para deixar o carro ecologicamente correto. Com esse combustível que temos, quanto tempo vai levar para ele ficar comprometido novamente? É possível, ou viável, gastar R$ 3 mil todos os anos para passar na inspeção?
Quando falamos em picapes e SUVs à diesel, logo nos remetemos a carrões caros, luxuosos e sofisticados. Nem sempre é assim. Conheço muito chacareiro que depende da sua caminhonete velha de R$15 mil para carregar frutas e verduras por esse mundo afora. Além disso, a grande maioria dos SUVs e Crossover de luxo que vemos circulando hoje em dia pelas cidades são automáticos e a gasolina, ou seja, nunca passaram e nunca passarão por um terrão de verdade.
No site da Prefeitura, há um texto explicativo que diz que quando o carro não é aprovado, normalmente, "os reparos são coisas simples e baratas". Ironia pura. A própria prefeitura, ainda no site, diz que em vários países da Europa a inspeção já existe há muitos tempo e é um tremendo sucesso, com adesão de todos os cidadãos. Fico imaginando se, para passar na inspeção lá, o cidadão europeu comum se dispõe a gastar mais de mil euros por ano. E olha que lá é comum até sedan movido a diesel.
Além disso, o procedimento de abrir e inspecionar a bomba antes dos 100 mil quilômetros contraria o próprio manual do fabricante do veículo, já que o carro não apresenta nenhum tipo de problema de desempenho ou consumo, portanto, é um equipamento que está funcionando perfeitamente.
Que tal, como segunda medida, obrigar os engenheiros das grandes montadoras a produzir motores menos poluentes ou outras formas de filtrar os resíduos (como já faz o próprio catalisador)? Muitos dos carros hoje reprovados tem nível de emissão de poluentes de acordo com as especificações dos fabricantes, mas não conseguem chegar nos índices da Controlar. Não adianta criar regras que não podem ser cumpridas. A lei é boa, bem intencionada e importante. Mas tem que prever situações como as relatadas. Não dá para retroagir e obrigar todos os carros construídos antes da existência da lei aos moldes que se pretende seguir daqui para a frente.
É como a lei contra dirigir embriagado. É fato que, num primeiro momento, os índices de acidente caem e servem para justificar a decisão. Mas o excesso de rigor da lei (bem maior que o da lei norte americana, por exemplo) transformou na prática todo pai de família que toma uma cerveja na churrascaria no almoço de domingo em um fora da lei. E fora da lei é o quê? Bandido. E que atire a primeira pedra quem nunca tomou uma cerveja e saiu dirigindo depois da criação da lei.


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