|
A alimentação é um direito humano, mas um enorme contingente
da população mundial vive em situação de insegurança
alimentar e periodicamente o fantasma da fome volta a afligir o mundo, colocando
ainda mais pessoas nessas condições, explica Maria Auxiliadora
de Carvalho, pesquisadora do Instituto de Economia Agronômica (IEA), no
artigo Os Números da Crise dos Alimentos, publicado em junho
deste ano. O IEA faz parte da Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócio
(APTA), ligada à Secretaria da Agricultura e Abastecimento do governo do
Estado de São Paulo.
É o que se observa na atualidade
quando 37 países enfrentam crises de abastecimento causadas por secas,
inundações, mudança climática, preço elevado
do petróleo e demanda crescente para biocombustíveis. São
21 países da África, 10 da Ásia, cinco da América
Latina e um da Europa. Esses eventos provocaram uma escalada dos preços
dos alimentos básicos, afetando adversamente a segurança alimentar,
analisa Carvalho de acordo com dados da Organização de Agricultura
e Alimentação das Nações Unidas (FAO, sigla em inglês).
A partir desse contexto, o Brasil reforça uma condição
que muito antes era apenas uma idéia que povoava o imaginário da
população brasileira, ligada, justamente ao tamanho do País
e a diversidade de produção, tanto na agricultura com na pecuária:
produzir alimentos para o mundo. No passado se dizia que o Brasil era o
celeiro do mundo, porém, por muito tempo isso não passou de retórica
dos próprios brasileiros. Hoje a realidade é outra: especialistas
do mundo todo vêem o País como o provedor mais capacitado para esfriar
a crise de alimentos, e parece que já vem cumprindo essa tarefa com razoável
desempenho, destaca a especialista.
A potencialidade do País
no setor da agricultura foi enfatizada numa analogia ao futebol, por Alfredo Scheid
Lopes, engenheiro agrônomo e consultor técnico da Associação
Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). Eu costumava dizer em minhas
palestras, que puseram a bola na marca do pênalti para a agricultura brasileira,
tiraram o goleiro, e falaram chuta! E meu medo era que chutássemos
para fora. Agora com essa questão de etanol e biodiesel, eu estou usando
uma expressão assim: puseram a bola na marca do pênalti, tiraram
o goleiro, dobraram o tamanho do gol, e meu receio é que se nós
não nos organizarmos, nós não vamos aproveitar essa oportunidade,
declara. O
potencial do brasileiro Em
termos absolutos, o Brasil possui uma área de 851.487.659 hectares. Desse
total, de acordo com dados o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), o País detém 369.545.580 hectares de terras com potencialidade
agrícola descritas entre boa e regular [confira o mapa]. Este número
corresponde a 43,4% do território nacional, e ainda não é
totalmente aproveitado para a agricultura. Sem querer exagerar em números,
em termos de área, nós estamos explorando na agricultura 15,4% do
potencial de terra agricultável, analisa Lopes. Nós
temos 200 milhões hectares de área de pastagem e metade está
degradada. Se nós pegarmos um terço dessa área degradada,
e colocarmos em produção, na pior das hipóteses, quatro toneladas
por hectare, nós vamos produzir cerca de 120 milhões de toneladas
de alimentos, sem desmatar um pé de floresta. Na nossa ótica não
tem como não dar certo. Temos tecnologia, temos 14% de água doce
de rio do mundo, temos como aumentar a produtividade, então é a
questão de nós nos organizarmos, enfatiza o especialista.
Na safra de 2004/2005 o Brasil atingiu o maior valor de área
plantada desde a safra 1976/1977, com 49.068.200 hectares, segundo dados da Companhia
Nacional de Abastecimento (Conab), do Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento (MAPA). Para a safra de 2007/2008, esta área é estimada
em 47.170.800 hectares.
No Plano Agrícola e Pecuário
(2008/2009) o governo criou o Programa de Produção Sustentável
do Agronegócio (Produsa), destinado à implantação
de sistemas produtivos sustentáveis que prioriza a recuperação
de áreas de pastagens e degradadas, diz o ministro da Agricultura,
Reinhold Stephanes. Para esse programa foi destinado R$ 1 bilhão
a ser aplicado neste ano safra. Isso permitirá que parte da área
hoje ocupada com pastagens possa ser recuperada e utilizada para o plantio de
grãos.
Para Stephanes, o Brasil está numa posição
favorável no que se refere ao abastecimento do mercado interno. A
produção de arroz e o estoque existente, de 1,4 milhão, de
toneladas é suficiente para atender o consumo interno até a próxima
safra, que ocorrerá em fevereiro de 2009. Em relação ao feijão,
considerando que é possível realizar três safras por ano,
o ajuste entre a produção e o consumo ocorre rapidamente. A próxima
colheita da safra irrigada, que começa no mês de setembro, será
suficiente para garantir o consumo até a safra seguinte que será
colhida a partir de dezembro. Alta
nos preços Quanto
maior a procura e menor é a oferta, os preços vão dosar o
consumo esta é a lei básica de mercado, e é por ela
que a crise vem tomando conta das discussões. No cenário internacional,
segundo análise de Maria Auxiliadora de Carvalho (IEA), este ano os cereais
e óleos lideraram a elevação dos preços, com altas
de 27% e 26%, respectivamente, entre dezembro de 2007 e março de 2008.
O açúcar vem logo em seguida com 23% e as carnes, com 8% de
aumento. Somente o grupo dos lácteos teve redução de preços
(menos 6%), resultando em incremento médio de 18% nos preços dos
alimentos nos três primeiros meses de 2008.
No Brasil os
preços dos alimentos tiveram evolução mais moderada, de acordo
com Carvalho. A partir dos índices de alimentos e bebidas, que compõem
o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e o Índice
Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), entre janeiro de 2000 e maio de
2008, o aumento dos preços esteve um pouco acima de 80%, com certa desvantagem
para os trabalhadores de renda mais baixa, pois o INPC cresceu mais. Biocombustível
X Produção de alimentos A
partir das altas nos preços dos alimentos, políticas de agroenergia,
como a brasileira de produção de biocombustível, foram duramente
criticadas internacionalmente. O que depois, mostraram-se infundadas, pelo simples
fato de entidades como a ONU e países europeus desconhecerem a realidade
em questão do que se produz o quê em cada região do País.
A Europa não tem muita visão da dimensão brasileira.
Eles conhecem o nosso País, mas não em detalhe, diz Wagner
Rossi, presidente da Conab. É muito fácil criar uma visão
equivocada, dizendo que o aumento do plantio de cana no Brasil ameaça a
floresta amazônica. Eles não sabem que a floresta amazônica
está muito distante dos centros produtivos, que são o Centro-Sul
e o Centro-Oeste, e que o cultivo não oferece risco à biodiversidade.
Para Rossi, não há nenhum problema de incompatibilidade
entre o programa de biocombustíveis, como o etanol de cana-de-açúcar,
e a produção de alimentos, analisando o caso do Brasil. Em
primeiro lugar, dos quase 300 milhões de hectares de terras cultiváveis
no Brasil (um terço do total), apenas 7,8 milhões, ou 2,8% desta
área, são destinados à cana. Os alimentos representam 48
milhões ou cerca de 17% da área cultivada. O restante das terras,
cerca de dois terços, está ocupado por pastagens naturais ou é
simplesmente inaproveitável. Isso significa que podemos dobrar, triplicar,
quadruplicar a área de grãos e de cana sem criar conflitos,
destaca. Estimativas
de safra Os
últimos dados, divulgados em julho deste ano pelo IBGE, indicam uma produção
da ordem de 145,1 milhões de toneladas. Esta estimativa da safra nacional
de cereais, leguminosas e oleaginosas supera em 9,0% à obtida em 2007 (133,1
milhões de toneladas). Esse volume é maior 1,0% que o previsto em
junho (143,6 milhões de toneladas), devido, principalmente, a reajustes
das culturas de verão, com a conclusão de colheita, reavaliação
do sorgo, milho e feijão 2ª safras e ao acréscimo no plantio
do feijão 3ª safra e das culturas de inverno, como a do trigo, decorrentes
dos bons preços que estão sendo praticados.
Com relação
à área plantada, a estimativa em 2008 apresenta acréscimo
de 4,3% sobre a área plantada de grãos em 2007, situando-se em 47,3
milhões de hectares. As culturas que ocupam as maiores áreas investigadas
são a soja com 21,3 milhões de hectares, o milho com 14,4 milhões
de hectares e o arroz com 2,9 milhões de hectares. O somatório das
safras destes três produtos representa 90,0% da produção nacional
estimada de grãos.
Comparado a evolução da produção
de grãos e a ocupação das terras agrícolas brasileiras
com estas culturas, de 1980 a 2008, é observado que a produção
cresceu mais significativamente que a área cultivada, segundo o IBGE. Isso
deixa claro os avanços tecnológicos que determinaram aumentos nos
rendimentos médios das culturas. Permanece a expectativa de obtenção
de um novo recorde para 2008.
Em termos absolutos a estimativa de produção
de cereais, leguminosas e oleaginosas está assim distribuída pelas
Grandes Regiões: Região Sul, 60,6 milhões de toneladas; Centro-Oeste,
50,5 milhões de toneladas; Sudeste, 17,5 milhões de toneladas; Nordeste,
12,7 milhões de toneladas e Norte, 3,7 milhões de toneladas. Da
fome à produtividade em 3 anos Na
República do Maláui, um país africano, localizado no leste
do continente entre os países, Tanzânia, Moçambique e Zâmbia,
houve uma grande mudança no setor produtivo daquele país. Da realidade
de pobreza e fome para a realização de um país exportador
de milho a cultura mais desenvolvida lá.
Com cerca de 13,2
de habitantes (RDH 2007/2008), o país reverteu uma realidade que consome
o continente africano. E foi necessário apenas um suporte internacional
e a força de vontade do governo malauiano esta última sim,
grande responsável pela transformação de Maláui.
Pedro Sanchez, diretor do Programa de Agricultura Tropical e Meio Ambiente Rural
e pesquisador sênior do Instituto da Terra, da Universidade de Columbia,
em Nova Iorque, nos Estados Unidos, esteve no Brasil em julho e apresentou esse
trabalho, o qual ajudou a desenvolver. Para o especialista, a degradação
dos nutrientes do solo e a falta de manejo com a água são os fatores
limitantes para a produção da agricultura na África. Havia
uma crise de alimentos em Maláui, com um déficit de 44%, conta
Sanches. Noventa porcento dos malauianos são agricultores, e por
conta desse déficit o país dependia de ajuda internacional de suprimentos.
Foi quando o presidente disse: Eu acabado de ser eleito, mas Maláui
não poder ser um país soberano se não pode comer. Não
temos liberdade, não temos nada para comer somos mendigos mundiais.
Que você acredita que podemos fazer?. A solução,
encontrada pelo grupo, no qual Sanches participava, era criar um programa de subsídio
de adubos e sementes melhoradas. Sem a ajuda internacional, como a do Banco Mundial,
o governo daquele país colocou esse programa de subsídio dentro
do próprio orçamento. E foi uma coisa incrível, porque
eles fizeram um programa de subsídio, no qual eram passados aos agricultores
dois sacos de adubo, de cinqüenta quilos, e três quilos de milho híbrido
a um desconto de 75%, destaca Sanches.
No primeiro ano, em 2006,
em vez de 44% de déficit tiveram um superávit de 25%. No segundo
ano (2007), o país teve um excesso de produção de 57%. Passaram
de um déficit de 44% a 57% de excesso em dois anos. Agora eles exportam
milho a Zimbábue e o próprio programa de alimentação
mundial passou a comprar o milho deles para distribuir em outros países.
Maláui se converteu em doador de alimentos para países com problemas
de alimentação.
Esse tipo de coisa não
pode ser feito num país que tem guerra civil, como tem a Somália.
Não pode ser feito num país que tem crise política, como
tem Zimbábue, explica Sanches. Zimbábue era considerada
uma Red Basket [literalmente Cesta Vermelha, uma expressão
para boa produtividade], com uma boa produção de alimentos e agora
não tem nada. Então é preciso um nível de governabilidade
aceitável no país.
O exemplo de Maláui serve
para ilustrar como é possível reverter uma situação
crítica. Um trabalho que não serviria para o Brasil, pelo fato de
o País ter solo e clima favoráveis à produção,
segundo Sanches. O especialista conta já esteve a trabalho no País
em 1972, colaborando com a recém-criada Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa) e integrantes do Ministério da Agricultura.
Conheceu a região dos cerrados e região amazônica. Gosto
muito do Brasil, e considero que os grandes avanços na ciência do
solo, feitos por aqui, são responsáveis pelo País ser uma
potência mundial de produção de alimentos. É isso que
basicamente estamos fazendo na África, declara. Alimentação
mais rica Em
termos de produção o País já vem mostrando os resultados,
e aliada a essa qualidade da agricultura brasileira, a Embrapa Agroindústria
de Alimentos vem participando há quatro anos um projeto de enriquecimento
de micronutrientes presentes nos alimentos. Esse projeto, chamado de Biofortificação,
está ligado aos programas HarvestPlus e AgroSalud, do qual também
participa uma rede de pesquisadores do exterior. A unidade da Embrapa, localizada
no Rio de Janeiro, coordena os programas na América Latina e África.
O programa tem um diferencial que é promover a qualidade
nutricional dos alimentos com o enriquecimento dos três micronutrientes
básicos: ferro, zinco e betacaroteno, explica José Luiz Viana
de Carvalho, pesquisador Embrapa Agroindústria de Alimentos, especialista
em tecnologia de cereais e leguminosas. Segundo ele, esses três micronutrientes
são importantes para o combate à anemia, no caso do ferro; para
o desenvolvimento intelectual (zinco); e na prevenção contra a cegueira,
com o betacaroteno (pró-vitamina A).
O projeto tem um alvo,
atingir x. Ainda não chegamos nesse alvo, mas estamos caminhando
para isso. Conseguimos produtos intermediários, destaca Carvalho.
Há dois anos nós lançamos uma mandioca que chegou a
30% do resultado que queríamos, hoje é ela está com 50%,
e isso é resultado muito bom para o projeto.
Aqui no Brasil,
estão sendo desenvolvidas pesquisas no enriquecimento com o feijão,
o feijão-caupi, a batata-doce, o arroz, o milho e a mandioca. Esse trabalho
de enriquecimento nutricional desses alimentos é desenvolvido a partir
de cruzamento convencional, no qual são valorizados os resultados que transmitam
essa qualidade nutricional.
Também participam desse projeto, aqui
no País, as unidades da Embrapa Arroz e Feijão, Mandioca e Fruticultura
Tropical, Milho e Sorgo, Hortaliças, Meio Norte e Tabuleiros Costeiros,
com apoio da Universidade de Campinas (Unicamp), Unesp e Universidade de Adelaide
(Austrália), participam do projeto pesquisando variedades de feijão,
feijão-caupi, batata-doce, arroz, milho e mandioca. Resultados Mandioca
A
Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical (Cruz das Almas/BA) trabalhou o melhoramento
da mandioca e triplicou o teor de betacaroteno nas raízes. De quatro microgramas
por quilo (4 microgramas/kg) de betacaroteno em variedades como a Dourada e a
Gema de Ovo, lançadas há dois anos, chegou-se a híbridos
com teores de até 12 microgramas/kg de betacaroteno. São mandiocas
de polpa amarela, macias, pouco fibrosas, de sabor agradável, cozimento
rápido e produtivas.
Feijão
A Embrapa Arroz e Feijão
(Santo Antônio de Goiás/GO) obteve três genótipos de
feijão com teores de ferro acima de 90 microgramas/kg (90 ppm). Para zinco,
outros sete genótipos têm teores acima de 50 microgramas por quilo
(50 ppm). Em cultivares convencionais, esses teores não passam de 60 microgramas/kg
de ferro e de 35 microgramas/kg de zinco. As pesquisas trabalham também
a melhoria da produtividade das variedades biofortificadas. Batata-doce
Embrapa Hortaliças (Brasília-DF), em parceria com centros de
pesquisa nacionais e internacionais, já tem variedades com teores de betacaroteno
entre 26 microgramas/kg a 63 microgramas/kg. No entanto, há materiais em
estudo com concentrações superiores a 200 microgramas/kg.
Feijão-caupi Em 2008, a Embrapa-Meio Norte (Teresina-PI) lança
o feijão-caupi Xique-xique com média de 77 microgramas/kg (77 ppm)
de teor de ferro e produção de até 750kg por hectare (ha)
em condição de sequeiro e quase duas toneladas/ha em sistema irrigado.
A melhor linhagem registrada pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical
(IITA, sigla em inglês), referência mundial em feijão-caupi,
com sede na Nigéria (África), chega a 71 ppm. Recursos
A Fundação Bill e Melinda Gates e o Banco Mundial, entre outros,
investem mais de US$ 50 milhões no programa HarvestPlus (www.harvestplus.org).
O AgroSalud (www.agrosalud.org) é um consórcio formado pelo Centro
Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), Centro Internacional de Melhoramento
de Milho e Trigo (CIMMYT, sigla em espanhol), Centro Internacional Batata (CIP,
em espanhol), Consórcio Latino-americano e do Caribe para Apoio, Pesquisa
e Desenvolvimento da Mandioca (CLAYUCA, em espanhol) e Embrapa. A Agência
Internacional Canadense de Desenvolvimento (CIDA, em inglês) é a
principal fonte financiadora. |