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ALIMENTOS - POTENCIAL PARA CESTA FARTA!
rev 127 - setembro 2008

Ultrapassamos a marca de 6,5 bilhões de habitantes, em 2005. Para 2015, a projeção estimada é de 7,2 bilhões. Estes são os dados do Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/2008 (RDH 2007/2008), divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Somos 192 países – considerando os países-membro da Organização das Nações Unidas (ONU) – com um número crescente de pessoas para dividir os recursos cada vez mais escassos da Terra. Se anteriormente a preocupação era (mas é fato que não deixa de ser ainda) com a água e as alterações climáticas do planeta, agora é a falta de alimentos que vem bater à porta de todas as nações como o chamariz de uma crise mundial – uma crise que o continente africano amarga há muito tempo.

“A alimentação é um direito humano, mas um enorme contingente da população mundial vive em situação de insegurança alimentar e periodicamente o fantasma da fome volta a afligir o mundo, colocando ainda mais pessoas nessas condições”, explica Maria Auxiliadora de Carvalho, pesquisadora do Instituto de Economia Agronômica (IEA), no artigo “Os Números da Crise dos Alimentos”, publicado em junho deste ano. O IEA faz parte da Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócio (APTA), ligada à Secretaria da Agricultura e Abastecimento do governo do Estado de São Paulo.

“É o que se observa na atualidade quando 37 países enfrentam crises de abastecimento causadas por secas, inundações, mudança climática, preço elevado do petróleo e demanda crescente para biocombustíveis. São 21 países da África, 10 da Ásia, cinco da América Latina e um da Europa. Esses eventos provocaram uma escalada dos preços dos alimentos básicos, afetando adversamente a segurança alimentar”, analisa Carvalho de acordo com dados da Organização de Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO, sigla em inglês).

A partir desse contexto, o Brasil reforça uma condição que muito antes era apenas uma idéia que povoava o imaginário da população brasileira, ligada, justamente ao tamanho do País e a diversidade de produção, tanto na agricultura com na pecuária: produzir alimentos para o mundo. “No passado se dizia que o Brasil era o celeiro do mundo, porém, por muito tempo isso não passou de retórica dos próprios brasileiros. Hoje a realidade é outra: especialistas do mundo todo vêem o País como o provedor mais capacitado para esfriar a crise de alimentos, e parece que já vem cumprindo essa tarefa com razoável desempenho”, destaca a especialista.

A potencialidade do País no setor da agricultura foi enfatizada numa analogia ao futebol, por Alfredo Scheid Lopes, engenheiro agrônomo e consultor técnico da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA). “Eu costumava dizer em minhas palestras, que puseram a bola na marca do pênalti para a agricultura brasileira, tiraram o goleiro, e falaram ‘chuta’! E meu medo era que chutássemos para fora. Agora com essa questão de etanol e biodiesel, eu estou usando uma expressão assim: puseram a bola na marca do pênalti, tiraram o goleiro, dobraram o tamanho do gol, e meu receio é que se nós não nos organizarmos, nós não vamos aproveitar essa oportunidade”, declara.

O potencial do brasileiro

Em termos absolutos, o Brasil possui uma área de 851.487.659 hectares. Desse total, de acordo com dados o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País detém 369.545.580 hectares de terras com potencialidade agrícola – descritas entre boa e regular [confira o mapa]. Este número corresponde a 43,4% do território nacional, e ainda não é totalmente aproveitado para a agricultura. “Sem querer exagerar em números, em termos de área, nós estamos explorando na agricultura 15,4% do potencial de terra agricultável”, analisa Lopes. “Nós temos 200 milhões hectares de área de pastagem e metade está degradada. Se nós pegarmos um terço dessa área degradada, e colocarmos em produção, na pior das hipóteses, quatro toneladas por hectare, nós vamos produzir cerca de 120 milhões de toneladas de alimentos, sem desmatar um pé de floresta. Na nossa ótica não tem como não dar certo. Temos tecnologia, temos 14% de água doce de rio do mundo, temos como aumentar a produtividade, então é a questão de nós nos organizarmos”, enfatiza o especialista.

Na safra de 2004/2005 o Brasil atingiu o maior valor de área plantada desde a safra 1976/1977, com 49.068.200 hectares, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Para a safra de 2007/2008, esta área é estimada em 47.170.800 hectares.

“No Plano Agrícola e Pecuário (2008/2009) o governo criou o Programa de Produção Sustentável do Agronegócio (Produsa), destinado à implantação de sistemas produtivos sustentáveis que prioriza a recuperação de áreas de pastagens e degradadas”, diz o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. “Para esse programa foi destinado R$ 1 bilhão a ser aplicado neste ano safra. Isso permitirá que parte da área hoje ocupada com pastagens possa ser recuperada e utilizada para o plantio de grãos”.

Para Stephanes, o Brasil está numa posição favorável no que se refere ao abastecimento do mercado interno. “A produção de arroz e o estoque existente, de 1,4 milhão, de toneladas é suficiente para atender o consumo interno até a próxima safra, que ocorrerá em fevereiro de 2009. Em relação ao feijão, considerando que é possível realizar três safras por ano, o ajuste entre a produção e o consumo ocorre rapidamente. A próxima colheita da safra irrigada, que começa no mês de setembro, será suficiente para garantir o consumo até a safra seguinte que será colhida a partir de dezembro”.

Alta nos preços

Quanto maior a procura e menor é a oferta, os preços vão dosar o consumo – esta é a lei básica de mercado, e é por ela que a crise vem tomando conta das discussões. No cenário internacional, segundo análise de Maria Auxiliadora de Carvalho (IEA), este ano os cereais e óleos lideraram a elevação dos preços, com altas de 27% e 26%, respectivamente, entre dezembro de 2007 e março de 2008. “O açúcar vem logo em seguida com 23% e as carnes, com 8% de aumento. Somente o grupo dos lácteos teve redução de preços (menos 6%), resultando em incremento médio de 18% nos preços dos alimentos nos três primeiros meses de 2008”.

No Brasil os preços dos alimentos tiveram evolução mais moderada, de acordo com Carvalho. A partir dos índices de alimentos e bebidas, que compõem o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), entre janeiro de 2000 e maio de 2008, o aumento dos preços esteve um pouco acima de 80%, com certa desvantagem para os trabalhadores de renda mais baixa, pois o INPC cresceu mais.

Biocombustível X Produção de alimentos

A partir das altas nos preços dos alimentos, políticas de agroenergia, como a brasileira de produção de biocombustível, foram duramente criticadas internacionalmente. O que depois, mostraram-se infundadas, pelo simples fato de entidades como a ONU e países europeus desconhecerem a realidade em questão do que se produz o quê em cada região do País. “A Europa não tem muita visão da dimensão brasileira. Eles conhecem o nosso País, mas não em detalhe”, diz Wagner Rossi, presidente da Conab. “É muito fácil criar uma visão equivocada, dizendo que o aumento do plantio de cana no Brasil ameaça a floresta amazônica. Eles não sabem que a floresta amazônica está muito distante dos centros produtivos, que são o Centro-Sul e o Centro-Oeste, e que o cultivo não oferece risco à biodiversidade”.

Para Rossi, não há nenhum problema de incompatibilidade entre o programa de biocombustíveis, como o etanol de cana-de-açúcar, e a produção de alimentos, analisando o caso do Brasil. “Em primeiro lugar, dos quase 300 milhões de hectares de terras cultiváveis no Brasil (um terço do total), apenas 7,8 milhões, ou 2,8% desta área, são destinados à cana. Os alimentos representam 48 milhões ou cerca de 17% da área cultivada. O restante das terras, cerca de dois terços, está ocupado por pastagens naturais ou é simplesmente inaproveitável. Isso significa que podemos dobrar, triplicar, quadruplicar a área de grãos e de cana sem criar conflitos”, destaca.

Estimativas de safra

Os últimos dados, divulgados em julho deste ano pelo IBGE, indicam uma produção da ordem de 145,1 milhões de toneladas. Esta estimativa da safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas supera em 9,0% à obtida em 2007 (133,1 milhões de toneladas). Esse volume é maior 1,0% que o previsto em junho (143,6 milhões de toneladas), devido, principalmente, a reajustes das culturas de verão, com a conclusão de colheita, reavaliação do sorgo, milho e feijão 2ª safras e ao acréscimo no plantio do feijão 3ª safra e das culturas de inverno, como a do trigo, decorrentes dos bons preços que estão sendo praticados.

Com relação à área plantada, a estimativa em 2008 apresenta acréscimo de 4,3% sobre a área plantada de grãos em 2007, situando-se em 47,3 milhões de hectares. As culturas que ocupam as maiores áreas investigadas são a soja com 21,3 milhões de hectares, o milho com 14,4 milhões de hectares e o arroz com 2,9 milhões de hectares. O somatório das safras destes três produtos representa 90,0% da produção nacional estimada de grãos.

Comparado a evolução da produção de grãos e a ocupação das terras agrícolas brasileiras com estas culturas, de 1980 a 2008, é observado que a produção cresceu mais significativamente que a área cultivada, segundo o IBGE. Isso deixa claro os avanços tecnológicos que determinaram aumentos nos rendimentos médios das culturas. Permanece a expectativa de obtenção de um novo recorde para 2008.

Em termos absolutos a estimativa de produção de cereais, leguminosas e oleaginosas está assim distribuída pelas Grandes Regiões: Região Sul, 60,6 milhões de toneladas; Centro-Oeste, 50,5 milhões de toneladas; Sudeste, 17,5 milhões de toneladas; Nordeste, 12,7 milhões de toneladas e Norte, 3,7 milhões de toneladas.

Da fome à produtividade em 3 anos

Na República do Maláui, um país africano, localizado no leste do continente entre os países, Tanzânia, Moçambique e Zâmbia, houve uma grande mudança no setor produtivo daquele país. Da realidade de pobreza e fome para a realização de um país exportador de milho – a cultura mais desenvolvida lá.

Com cerca de 13,2 de habitantes (RDH 2007/2008), o país reverteu uma realidade que consome o continente africano. E foi necessário apenas um suporte internacional e a força de vontade do governo malauiano – esta última sim, grande responsável pela transformação de Maláui.

Pedro Sanchez, diretor do Programa de Agricultura Tropical e Meio Ambiente Rural e pesquisador sênior do Instituto da Terra, da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, esteve no Brasil em julho e apresentou esse trabalho, o qual ajudou a desenvolver. Para o especialista, a degradação dos nutrientes do solo e a falta de manejo com a água são os fatores limitantes para a produção da agricultura na África. “Havia uma crise de alimentos em Maláui, com um déficit de 44%”, conta Sanches. “Noventa porcento dos malauianos são agricultores, e por conta desse déficit o país dependia de ajuda internacional de suprimentos. Foi quando o presidente disse: ‘Eu acabado de ser eleito, mas Maláui não poder ser um país soberano se não pode comer. Não temos liberdade, não temos nada para comer – somos mendigos mundiais. Que você acredita que podemos fazer?’”. A solução, encontrada pelo grupo, no qual Sanches participava, era criar um programa de subsídio de adubos e sementes melhoradas. Sem a ajuda internacional, como a do Banco Mundial, o governo daquele país colocou esse programa de subsídio dentro do próprio orçamento. “E foi uma coisa incrível, porque eles fizeram um programa de subsídio, no qual eram passados aos agricultores dois sacos de adubo, de cinqüenta quilos, e três quilos de milho híbrido a um desconto de 75%”, destaca Sanches.

No primeiro ano, em 2006, em vez de 44% de déficit tiveram um superávit de 25%. No segundo ano (2007), o país teve um excesso de produção de 57%. “Passaram de um déficit de 44% a 57% de excesso em dois anos. Agora eles exportam milho a Zimbábue e o próprio programa de alimentação mundial passou a comprar o milho deles para distribuir em outros países. Maláui se converteu em doador de alimentos para países com problemas de alimentação”.

“Esse tipo de coisa não pode ser feito num país que tem guerra civil, como tem a Somália. Não pode ser feito num país que tem crise política, como tem Zimbábue”, explica Sanches. “Zimbábue era considerada uma ‘Red Basket’ [literalmente ‘Cesta Vermelha’, uma expressão para boa produtividade], com uma boa produção de alimentos e agora não tem nada. Então é preciso um nível de governabilidade aceitável no país”.

O exemplo de Maláui serve para ilustrar como é possível reverter uma situação crítica. Um trabalho que não serviria para o Brasil, pelo fato de o País ter solo e clima favoráveis à produção, segundo Sanches. O especialista conta já esteve a trabalho no País em 1972, colaborando com a recém-criada Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e integrantes do Ministério da Agricultura. Conheceu a região dos cerrados e região amazônica. “Gosto muito do Brasil, e considero que os grandes avanços na ciência do solo, feitos por aqui, são responsáveis pelo País ser uma potência mundial de produção de alimentos. É isso que basicamente estamos fazendo na África”, declara.

Alimentação mais rica

Em termos de produção o País já vem mostrando os resultados, e aliada a essa qualidade da agricultura brasileira, a Embrapa Agroindústria de Alimentos vem participando há quatro anos um projeto de enriquecimento de micronutrientes presentes nos alimentos. Esse projeto, chamado de Biofortificação, está ligado aos programas HarvestPlus e AgroSalud, do qual também participa uma rede de pesquisadores do exterior. A unidade da Embrapa, localizada no Rio de Janeiro, coordena os programas na América Latina e África.

“O programa tem um diferencial que é promover a qualidade nutricional dos alimentos com o enriquecimento dos três micronutrientes básicos: ferro, zinco e betacaroteno”, explica José Luiz Viana de Carvalho, pesquisador Embrapa Agroindústria de Alimentos, especialista em tecnologia de cereais e leguminosas. Segundo ele, esses três micronutrientes são importantes para o combate à anemia, no caso do ferro; para o desenvolvimento intelectual (zinco); e na prevenção contra a cegueira, com o betacaroteno (pró-vitamina A).

“O projeto tem um alvo, atingir ‘x’. Ainda não chegamos nesse alvo, mas estamos caminhando para isso. Conseguimos produtos intermediários”, destaca Carvalho. “Há dois anos nós lançamos uma mandioca que chegou a 30% do resultado que queríamos, hoje é ela está com 50%, e isso é resultado muito bom para o projeto”.

Aqui no Brasil, estão sendo desenvolvidas pesquisas no enriquecimento com o feijão, o feijão-caupi, a batata-doce, o arroz, o milho e a mandioca. Esse trabalho de enriquecimento nutricional desses alimentos é desenvolvido a partir de cruzamento convencional, no qual são valorizados os resultados que transmitam essa qualidade nutricional.

Também participam desse projeto, aqui no País, as unidades da Embrapa Arroz e Feijão, Mandioca e Fruticultura Tropical, Milho e Sorgo, Hortaliças, Meio Norte e Tabuleiros Costeiros, com apoio da Universidade de Campinas (Unicamp), Unesp e Universidade de Adelaide (Austrália), participam do projeto pesquisando variedades de feijão, feijão-caupi, batata-doce, arroz, milho e mandioca.

Resultados

Mandioca

A Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical (Cruz das Almas/BA) trabalhou o melhoramento da mandioca e triplicou o teor de betacaroteno nas raízes. De quatro microgramas por quilo (4 microgramas/kg) de betacaroteno em variedades como a Dourada e a Gema de Ovo, lançadas há dois anos, chegou-se a híbridos com teores de até 12 microgramas/kg de betacaroteno. São mandiocas de polpa amarela, macias, pouco fibrosas, de sabor agradável, cozimento rápido e produtivas.

Feijão

A Embrapa Arroz e Feijão (Santo Antônio de Goiás/GO) obteve três genótipos de feijão com teores de ferro acima de 90 microgramas/kg (90 ppm). Para zinco, outros sete genótipos têm teores acima de 50 microgramas por quilo (50 ppm). Em cultivares convencionais, esses teores não passam de 60 microgramas/kg de ferro e de 35 microgramas/kg de zinco. As pesquisas trabalham também a melhoria da produtividade das variedades biofortificadas.

Batata-doce

Embrapa Hortaliças (Brasília-DF), em parceria com centros de pesquisa nacionais e internacionais, já tem variedades com teores de betacaroteno entre 26 microgramas/kg a 63 microgramas/kg. No entanto, há materiais em estudo com concentrações superiores a 200 microgramas/kg.

Feijão-caupi

Em 2008, a Embrapa-Meio Norte (Teresina-PI) lança o feijão-caupi Xique-xique com média de 77 microgramas/kg (77 ppm) de teor de ferro e produção de até 750kg por hectare (ha) em condição de sequeiro e quase duas toneladas/ha em sistema irrigado. A melhor linhagem registrada pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA, sigla em inglês), referência mundial em feijão-caupi, com sede na Nigéria (África), chega a 71 ppm.

Recursos

A Fundação Bill e Melinda Gates e o Banco Mundial, entre outros, investem mais de US$ 50 milhões no programa HarvestPlus (www.harvestplus.org). O AgroSalud (www.agrosalud.org) é um consórcio formado pelo Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT), Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (CIMMYT, sigla em espanhol), Centro Internacional Batata (CIP, em espanhol), Consórcio Latino-americano e do Caribe para Apoio, Pesquisa e Desenvolvimento da Mandioca (CLAYUCA, em espanhol) e Embrapa. A Agência Internacional Canadense de Desenvolvimento (CIDA, em inglês) é a principal fonte financiadora.


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