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ATAQUE AOS PARASITAS COMEÇA NO MEIO AMBIENTE
rev 70 - outubro 2003

Animais, plantas e microorganismos dependem um dos outros. Monoculturas formam ecossistemas pobres em termos de variabilidades de espécies, ou seja, há baixíssima biodiversidade. Muitas das funções pertinentes não têm quem as execute e não há o devido compartilhamento de tarefas. Diminui a competição e pode haver presença insuficiente de organismos predadores ou parasitas, implicando em sobra de alimento para determinadas espécies e falta de agentes capazes de manter a população daquelas espécies sob controle. Desta maneira foi que as cirraginhas-das-pastagens, entre outras pragas, vieram a constituir-se em sérias pragas nas pastagens cultivadas.

Em estudos é sugerida a manutenção de Ilhas Ecológicas e faixas de vegetação nativa para manter a diversidade biológica local. O produtor rural sabe, por experiência própria, que animais mantidos em pastagens com abundância de bosques, ou árvores e arbustos, independentemente da forma que as árvores estiverem distribuídas, tendem a apresentar maior número de ectoparasitas, como bernes ( Dermatobia hominis) e carrapatos (Boophilus microplus), entre outros. A presença de ectoparasitas no rebanho, geralmente é mais severa em animais de raças européias ou originados de cruzamentos destas com zebuínos, sendo que naqueles em que predomina o sangue de zebu há uma maior resistência a estes ectoparasitas.

O aumento da presença de ectoparasitas bovinos em função da presença de matas ou bosques, só para mencionar alguns autores, já foi divulgado por Andrade (1929) e, mais recentemente, por Gomes et al. (1989). Longe de se constituir num grave problema, representa a prova mais clara de que, se até os parasitas são favorecidos pela presença da vegetação nativa, os seus inimigos naturais e uma infinidade de outros seres vivos também estão sendo beneficiados. Ao remover excessivamente a vegetação nativa, estamos destruindo maior contingente de organismos úteis do que de nocivos, porque os agentes naturais de controle já vinham cumprindo a sua população dos insetos pragas. O complemento no controle de pragas de interesse poderá, então, ser buscado, recorrendo-se a métodos convencionais defensivos agrícolas ou veterinários) e outras alternativas que compõe o que é, mundialmente, denominado de Manejo Integrado de Pragas - MIP.

Na verdade, atualmente, o MIP está dando lugar a um novo conceito de Proteção de Plantas, que é muito mais amplo do que o anterior. Qualquer planta, conjunto de plantas, ou mesmo de animais, inclusive o homem, não devem ser tratados apenas contra doenças ou parasitas após instalados, pois uma vez recuperados tornarão a ficar expostos á reinfestações. A possibilidade de reinfestações e possíveis novos danos (prejuízos) são fatores que precisam ser removidos para a efetiva solução do problema. Ou seja, é preciso atacar as causas, origens ou fontes inoculadoras e, nutrir devidamente o indivíduo, de modo que seu socorro. Qualquer organismo, animal ou planta, que se encontre debilitado, pouco ou quase nada pode fazer em defesa de si mesmo e de outros, dependendo então de auxílio. Segundo o conceito de proteção de plantas, o controle biológico de pragas constitui ferramenta essencial para dar estabilidade á pretendida proteção que se pretenda conferir.

O controle biológico é a parte da agricultura sustentável que busca manter as populações de pragas abaixo dos níveis de dano econômico. Esse objetivo também se aplica as explorações a qualquer organismo que o homem deseje manter sob controle. No controle biológico, além do aproveitamento ou manejo dos organismos úteis como parasitas, predadores ou patógenos, há ainda armas muito promissoras em estudo ou início de utilização.

Entre elas uma variedade ainda pouco conhecida de princípios ativos com propriedades biocidas ou repelentes de pragas e que podem ser extraídos de plantas, muitas das quais são comuns em nosso meio. Tais produtos apresentam, muitas vezes, uma vantagem adicional sobre os produtos convencionais de controle por não deixarem resíduos tóxicos no ambiente, como é o caso atualmente em moda do uso do alho para o controle da mosca-dos-chifres e outros parasitas de bovinos (Franco 1997). Tais princípios ativos, no entanto, precisam ser identificados e quantificadas as concentrações, em que podem ser empregados para, então, serem devidamente registrados e terem liberado, pelo ministério da Agricultura, o livre comércio e uso. Outras ferramentas biológicas com grandes perspectivas de utilização nas próximas décadas são as armadilhas a base de feromônios sexuais, onde as substâncias utilizadas pelas pragas na atração dos parceiros sexuais são isoladas e utilizadas como iscas.

A exportação pecuária, para evoluir em termos de sustentabilidade, deve considerar as condições de biodiversidade, no interior das pastagens, que atendam um mínimo das exigências para que o equilíbrio natural no sistema seja mantido ou restabelecido. Ao agir nesse sentido, deve levar em conta que o seu objetivo não é apenas promover a sobrevivência de insetos ou animais muito pequenos, mas também aos médio a grande porte porque, como anteriormente mencionado, uns dependem dos outros. Muitos seres vivos têm período de ocorrência efêmero durante o ano, em função da duração dos respectivos períodos de favorabilidade biológica (clima, oferta de alimento, etc.) Outros, porém, vivem por mais tempo e enfrentam sazonalidade na oferta de alguns alimentos, alternando o seu cardápio conforme a oferta. Por isso, importa preservar também animais de médio a grande porte que auxiliarão no controle das populações de organismos de ciclo curto quando estas entrarem no seu período favorável. Para alcançar esse objetivo, torna-se fundamental a existência de plantas que produzam frutos comestíveis (Simões, 1987) e de áreas livres da criação doméstica, onde animais maiores possam se estabelecer, abrigar e reproduzir.


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