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RASTREABILIDADE - SE ENQUADRAR PARA NÃO PERDER MERCADO
rev 57 - setembro 2002

Os 10% da produção de equivalente de arcaça/ano exportados representam entre 14 e 15% das cabeças abatidas durante todo o ano.

Ou seja, se forem abatidas 40 milhões de cabeças/ano, cerca de 6 milhões serão destinadas às exportações. Isso significa que pelo menos 500 mil animais terão de estar disponíveis por mês nos abatedouros dos frigoríficos que trabalham com a exportação da carne bovina.

Nelson Pineda, diretor da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), diz que, se esse raciocínio for seguido, levando em conta que as 830 mil cabeças disponíveis estejam dentro das especificações exigidas pelo Sisbov (Sistema de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina), o Brasil tem como atender o mercado internacional por apenas um mês e meio.

Perigo

De acordo com Pineda, se a rastreabilidade do nosso rebanho bovinos não avançar rapidamente, o Brasil corre sério risco de ser rebaixado de categoria na OIE (Organização Internacional de Epizootias). "Perderemos a credibilidade," afirma Pineda. Ele explica que o governo dederal deve criar mecanismos pelos quais o produtor possa ser beneficiado pela rastreabilidade.

Para implantação do sistema, cada animal poderá custar em torno de R$ 8,00. "Isso assusta o produtor. Ele não vê porque aderir ao sistema", ressalta o diretor da ABCZ, defendendo a idéia de que se os frigoríficos pagassem R$ 1,00 a mais por arroba, cada boi geraria o equivalente a R$ 16,00 a mais no preço final. "Bastaria repassar o preço ao consumidor ou mesmo que os frigoríficos ganhassem um pouco menos," afirma.

Nelson Pineda entende que o caminho para que a rastreabilidade no Brasil dê realmente certo é fazer uma "mesa redonda" entre frigoríficos, produtores e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para negociar um repasse ao produtor, que seja justo e não prejudique os envolvidos na cadeia produtiva. Atualmente, a tonelada da carne de bovinos brasileiros vendida no exterior é barata. De acordo com Pineda, ela representa valores em torno de U$ 1.500. "Para que o processo funcione é preciso convencer todos os envolvidos de que é necessário ganhar menos, para posteriormente faturar mais," explica.

Aumento da oferta interna

Se a oferta de carne para o mercado interno aumentar, com a não exportação do produto, o preço pago pelo boi ao pecuarista será ainda menor. Isso acarretaria, segundo Pineda, os mesmos problemas enfrentados atualmente. "Todos ganhariam ainda menos," diz.

Para um país cuja balança comercial tem alcançado sucessivos superávits, com grande participação do agronegócio nas exportações, deixar de exportar carne nesse momento pode gerar um retrocesso econômico.

Quanto às empresas certificadoras pelo MAPA para atuar na rastreabilidade, de acordo com Pineda elas atendem ao mercado, mas o problema é a falta de adesão dos pecuaristas. "O produtor fala: não vou entrar na rastreabilidade até que me mostrem que vou lucrar. Precisamos modificar esse cenário. Para isso, precisamos de transparência e honestidade entre frigoríficos e produtores," afirma.

Ele compara: No exterior, mais especificamente na França, são feitas reuniões para se discutir o preço da carne. O lucro é dividido entre todos os que participam da cadeia produtiva. Chega de o produtor ser o único a pagar a conta.


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