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FÁBIO
MOTINHO é jornalista e repórter da Revista Rural
impressa e do Programa Revista Rural, com passagem por programas
de televisão especializados e mais de cinco anos de
experiência na comunicação rural. Colabora
com a Revista Rural desde 2008.
É
de pequeno que se faz o bom gado
O cuidado com a sanidade e nutrição dos bezerros
garante o sucesso para a produção pecuária,
principalmente para a de corte, que pretende repor o que foi
perdido desde a crise do boi de 2005.
Nesse
período, os animais nascidos sofrem mais estresse e
ficam mais predispostos a doenças. Os meses de novembro
a janeiro são ideais para realizar a monta, para que
o nascimento da bezerrada se concentre nos meses de setembro
e outubro [confira a tabela desenvolvida pela Embrapa Gado
de Corte, que mostra o manejo anual com o gado]. Na gestação,
as vacas prenhes devem ser separadas, pelo menos, no último
mês de gestação, em um pasto maternidade
de fácil acesso, boa qualidade de pasto e água
e carga-animal adequada.
De acordo com a médica veterinária e especialista
em virologia da unidade de pesquisa de Campo Grande, Vanessa
Felipe de Souza, todo esse trabalho deve levar em conta qual
o objetivo de produção dentro da propriedade,
quais os recursos que ela dispõe, em termos de ambiente
e clima, além de ser acompanhado por um responsável
técnico especializado para melhor identificar e pautar
o trabalho de sanidade na fazenda.
A cura do umbigo
Ao nascer, o bezerro tem de receber um tratamento imediato
de assepsia [limpeza de germes] no umbigo – esse tratamento
é conhecido no campo como a ‘cura do umbigo’.
Esse procedimento evitará que se desenvolva bicheiras,
ocasionadas por larvas de moscas que possivelmente poderiam
ser depositadas no local.
O umbigo deve ser cortado na medida de dois dedos (aproximadamente
4 centímetros) e colocado em imersão durante
2 a 3 minutos numa solução de iodo a 10% puro.
Segundo Souza, o produto é barato e facilmente encontrado
em qualquer estabelecimento de produtos veterinários.
Os bezerros ‘curados’ deverão ser revisados
até a completa cura. “Isso vai depender do animal,
mas, via de regra, o tempo dessa cura completa gira em torno
de sete a 15 dias”, explica a pesquisadora.
Amamentação
A produção de bezerros fortes, saudáveis
e resistentes a doenças também dependerá
fundamentalmente do colostro mamado nas primeiras seis horas
de vida do animal. De acordo com os especialistas da Embrapa,
o consumo adequado do colostro e a assepsia bem feita do umbigo
podem ser responsáveis por 70% da prevenção
das doenças nos bezerros.
O colostro é a primeira secreção da glândula
mamária, tem grande valor nutricional e transmitirá
os anticorpos da mãe para o filho, com o objetivo de
fortalecê-lo imunologicamente. As primeiras seis horas
de ingestão desse alimento, logo após o nascimento,
garantem a proteção necessária ao bezerro.
Nos bovinos, a passagem de proteção contra as
doenças, da mãe para o filho através
da placenta, dificilmente acontece, deixando o bezerro praticamente
sem imunidade, daí a importância do primeiro
leite.
Desta forma, a vaca transfere para o bezerro a sua experiência
imunológica que vale para os primeiros meses de vida,
quando ainda não conseguem desenvolver plenamente a
sua própria imunidade.
Além de transmitir os anticorpos necessários
e ser rico em termos nutricionais, o colostro possui também
um efeito laxativo muito importante, sendo responsável
pela eliminação do mecônio, que são
as primeiras fezes do recém-nascido.
É importante lembrar que para uma boa produção
do colostro, a fêmea tem de estar bem nutrida. A deficiência
alimentar pode afetar o trabalho de parto normal por deficiências
hormonais; ocasionar uma produção de colostro
de baixa capacidade de proteção e também
refletir no tamanho do recém-nascido e nas condições
iniciais do filhote para procurar o alimento. Neste ponto,
tem muita influência a habilidade materna, que varia
com a experiência da fêmea, as condições
ambientais onde se encontra o rebanho e o estado de bem-estar
dos animais.
Manejo com os animais
Com base na época de nascimento, é indicado
que os criadores agrupem os animais em lotes, como forma de
facilitar e uniformizar o manejo dos bezerros. “Misturar
as categorias de animais poderia acarretar a disseminação
de doenças de um lote a outro”, argumenta Vanessa
Souza, pesquisadora da Embrapa. “Um grupo de animais
resistentes a determinadas doenças poderiam transmiti-las
ao lote mais suscetível a elas, prejudicando o manejo
sanitário”.
Aliada a essa separação de categorias, o pasto
ideal é que esteja livre limpo sanitariamente, livre
de agentes que possam encadear doenças.
De acordo com a médica veterinária da Embrapa,
é importante que um técnico especialista avalie
a área onde serão postos os animais e está
em condições de receber os animais.
É recomendável evitar o manejo intensivo em
currais e bretes. “Essa medida contribuirá para
não estressar os animais e evitar pisoteio das crias.
É importante lembrar que fêmeas com cria ao pé
costumam ficar mais sensíveis”, destaca Souza.
Em termos de alimentação, as pastagens para
bezerros em aleitamento devem ser de espécies de alta
qualidade, caracterizadas por elevados teores de proteína,
baixos teores de fibra, alta digestibilidade e boa aceitação.
Para este fim, é sugerido o uso de piquetes com capins,
como grama ‘coast-cross’ [tipo de forrageira,
perene, subtropical, híbrida, desenvolvida na Geórgia,
EUA, pelo cruzamento entre espécies de Cynodon (grama-bermuda).
É resistente ao frio, tolerando bem geadas. Apresenta
bom valor nutritivo (teor protéico: 12 a 13%), alta
produção (20 a 30 t/ha/ano de matéria-seca)
e alto nível de digestibilidade (60 a 70%)], milheto
ou leguminosas como os estilosantes Mineirão ou Leucena.
Para bezerros de corte criados a campo, sugere-se o plantio
de pequenas áreas, cercadas, dentro da invernada de
cria, destinada somente aos bezerros (sistema creep-grazing).
Sanidade
A vermifugação dos bezerros deve ocorrer a partir
da desmama, até a idade de 24 meses, com vermífugos
de largo espectro, o que significa que eles atuam contra todas
as espécies de vermes, e que possua um princípio
ativo eficaz às necessidades do animal. “Não
existe um princípio ativo com propriedades mágicas”,
explica a especialista. “O mais indicado é fazer
um exame de fezes, com contagem de OPG (ovos por grama) e
coprocultura [exame que detecta a cultura de microrganismos]
e, a seguir, um teste de resistência dos parasitos aos
vermífugos para escolher qual a droga mais indicada
e evitar o problema de resistência aos produtos”.
A vacinação contra a brucelose deve ser ministrada,
em dose única, no período de novembro a junho
seguinte ao nascimento, somente nas fêmeas com três
a oito meses de idade. Elas devem ser marcadas com um ‘V’
na ‘cara esquerda’ acompanhado do último
dígito do ano de vacinação. A este manejo
pode ser associada a vacina contra carbúnculo sintomático
(vacina polivalente) entre quatro e seis meses. Esta deve
ser repetida seis meses após.
Em áreas onde ocorre o botulismo, os bezerros devem
ser vacinados aos quatro meses, repetindo a dose após
40 dias e anualmente.
A vacina contra a raiva bovina é recomendada somente
em áreas onde a doença ocorre e deve ser dada
anualmente, no mês de julho. Dependendo do tipo de exploração
pecuária (cria, recria ou engorda) pode-se utilizar
vacinas com períodos de proteção diferentes.
Deve ser associada à vacinação dos cães,
eqüídeos e ao controle dos morcegos hematófagos
na região.
É importante vacinar os bezerros contra paratifo (salmonelose)
entre os 15 e 20 dias de vida. Recomenda-se também
que as vacas sejam vacinadas contra o paratifo no oitavo mês
de gestação.
A diarréia é um sinal da doença. Nestes
casos a melhor indicação para o tratamento deve
ser dada pelo médico-veterinário.
Para que os animais respondam adequadamente às vacinas
eles precisam estar em um bom estado nutricional, o que depende
da disponibilidade e de boa qualidade de pastagens, associada
a uma suplementação mineral própria para
a região, à vontade, no cocho, durante o ano
inteiro.
O acompanhamento de um médico-veterinário, diante
de um cronograma sanitário adequado, garantirá
a administração correta das vacinas (com a sugestão
das que são realmente necessárias ao rebanho),
o diagnóstico de doenças e a prescrição
de medicamentos necessários ao rebanho.
Febre aftosa
O calendário de vacinação contra a febre
aftosa foi unificado de maio a novembro. Bahia, Espírito
Santo, Rio de Janeiro e 530 municípios da região
leste de Minas Gerais atuarão na vacinação
dos rebanhos juntamente com os estados de São Paulo,
Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Tocantins,
parte de Minas Gerais e Distrito Federal. “
O calendário foi unificado pelo Programa Nacional de
Erradicação e Prevenção da Febre
Aftosa (PNEFA) a pedido do Fórum Nacional de Executores
de Sanidade Animal (FONESA), que representa os serviços
veterinários estaduais e faz parte dos esforços
das autoridades sanitárias brasileiras para a erradicação
da febre aftosa no Brasil até 2010”, declarou
o secretário de Defesa Agropecuária, Inácio
Kroetz.
A mudança permitirá que as etapas de vacinação
na maior parte do Brasil sejam promovidas na mesma época,
o que facilitará o trânsito de animais.
Na região do planalto, de acordo com a Embrapa Gado
de Corte, são vacinados todos os animais, com menos
de um ano de idade, no período de 1 a 28 de fevereiro;
todos os animais com menos de dois anos de idade no período
de 1 a 30 de maio e todos os animais da propriedade entre
1e 30 de novembro.
Na região do Pantanal são vacinados todos os
animais da propriedade uma vez no ano, ou no período
de 1º de maio a 15 de junho, ou de 1º de novembro
a 15 de dezembro. Recomenda-se que toda vez que houver saída
de bovinos do Pantanal, revacinar se já houver passado
seis meses da última vacinação.
Perguntas freqüentes
Como evitar a pneumoenterite dos bezerros e como
tratá-la?
A pneumoenterite é uma doença que ataca ao mesmo
tempo os pulmões e os intestinos e é comum em
animais jovens que não tem a imunidade totalmente estabelecida.
Para evitá-la as fêmeas devem ser vacinadas durante
o oitavo mês de gestação. Se a mãe
não for vacinada, o recém-nascido pode ainda
tomar a vacina aos 15 e 30 dias de idade.
O tratamento da pneumoenterite, prescrito pelo médico
veterinário, deve ser feito com antibióticos
e fluidoterapia – procedimento de administrar líquidos
aos animais que apresentem alguma doença debilitante
como desidratação (aplica-se, geralmente por
via endovenosa uma determinada quantidade de fluído
(solução fisiológica, glicose, etc) –
dependendo do estado do animal.
O que é, qual a causa e como tratar a fotossensibilização
em bezerros?
A fotossensibilização hepatógena em bezerros
é causada por um fungo que se desenvolve no material
seco do pasto, principalmente em pastagem de braquiária.
Ocorre geralmente após a desmama, quando o bezerro
passa a se alimentar exclusivamente da pastagem.
Essa doença, também conhecida como requeima,
é bastante comum e pode ser identificada por sinais
observados em exames clínicos, como lesões semelhantes
a queimaduras na pele, às vezes mucosas amareladas,
desidratação, apatia, entre outras características.
A primeira providência, nos casos de fotossensibilização
é a mudança dos bezerros para outro pasto de
espécie forrageira diferente, que tenha sombra. O tratamento
consiste na aplicação de protetor hepático,
anti-histamínicos e hidratantes. Nas lesões
da pele, devem ser aplicadas pomadas anti-sépticas
e cicatrizantes.
A partir de que idade os bezerros devem ser vacinados
contra o carbúnculo sintomático e a gangrena
gasosa?
Pode-se vacinar a partir de três a quatro meses de idade,
embora na prática, eles sejam vacinados aos seis meses,
com um reforço aos 12 meses. Em áreas de alto
risco de ocorrência da doença, recomenda-se vacinar
os bezerros a cada seis meses, até a idade de dois
anos.
Como fazer o tratamento do curso de sangue?
O tratamento do curso de sangue [caracteriza-se por uma diarréia
com sangue, também chamada curso negro] deve ser feito
o mais rapidamente possível com medicamentos à
base de sulfa, um grupo de antibióticos sintéticos
utilizados para tratar infecções. Conforme o
caso, também há necessidade de que sejam repostos
os líquidos perdidos, pelo emprego de fluidoterapia,
ou até mesmo por transfusão sangüínea.
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