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CAQUI - UM MAR VERMELHO!
rev 123 - maio 2008

Pequenos produtores se unem para elevar a cidade de Itatiba, interior paulista, em um dos grandes pólos no cultivo do caqui. Para quem passa pelas estradas de terra que dividem as pequenas propriedades rurais, na cidade de Itatiba (a 70 km da capital paulista), avista entre os meses de abril e maio, muitos caquizeiros carregados. E o que acontece na propriedade do Sítio Palmeira, que pertence aos Stocco, pequenos produtores de ascendência italiana. Ali, a família se divide entre a colheita, seleção e a embalagem dos frutos. Pais, filhos, netos e sobrinhos estão diretamente envolvidos na produção do caqui. “O meu pai, Domingos Stocco, começou cultivar nas nossas terras, os primeiros pés de uvas niágaras.

Depois, em 1969 ele encomendou de um vizinho ‘de porteira’ algumas mudas de caquizeiros ‘pra’ experimentar. No segundo ano do cultivo, já era possível ver alguns caquis no pé. Mas, só depois de sete anos é que já se via os caquizeiros cheios”, diz a produtora Rosângela Stocco.

O sítio, que possui uma área de 30 hectares, é dividido entre os membros da família e cada um produz o que pode. Além do cultivo do caqui e das uvas, existe espaço também para milho doce, pêssego e brócolis. Nos quatro hectares de terras do irmão mais velho, Sr. José Stocco é possível encontrar dois mil pés de caquizeiros. A variedade escolhida é a Rama-Forte. Segundo o produtor, há algum tempo também se produziam a Taubaté. No entanto, pela delicadeza da variedade ao amadurar e pela pouca procura nesta época, a fruta acabou perdendo espaço. E a aposta por agora é permanecer somente com a Rama-Forte.

De acordo com o Sr. José, é possível dizer com “todas as letras” que plantar caqui é um bom negócio, principalmente, porque requer pouco investimento, mão-de-obra e menos uso de defensivos agrícolas, se comparado com os demais cultivos. Com isto, a renda se torna atrativa. “Na década de 80, o caqui ganhou popularidade e fez com que muitos produtores apostassem no cultivo e na venda do fruto. De lá pra cá, o mercado cresceu a margem de uns 80%. Antes, as vendas eram na porta do sítio, depois levamos as caixas para o CEASA de Campinas. Hoje, saímos daqui para vender nas cidades de São José do Rio Preto, alguns mercados de São Paulo e Minas Gerais. Mesmo assim, tem um comprador que vem aqui no sítio buscar as frutas, desde quando começamos a vendê-las”, diz. A família do Sr. Domingos Stocco dá prosseguimento à herança deixada de pai para filho. “E já está na terceira geração”, diz o neto e produtor Wagner Stocco. “Só de caqui, esperamos colher uma produção de 120 toneladas”, diz ele satisfeito.

Outro produtor que apostou no cultivo do caqui e que se destaca entre os pioneiros no cultivo da frutinha, conhecida pela alta concentração de cálcio, proteínas e vitaminas, é Valdir Montico. Com uma área de seis hectares, a família mantém quatro hectares somente com o caqui e aguarda encerrar a safra com 100 toneladas. “A atividade faz parte da agricultura familiar da nossa região. A colheita é manual e exige pouca mão-de-obra, ainda assim, nesta época, é comum ‘convidar’ grande parte da família para ajudar. Isto é um fator que menos pesa no custo produção”, conta Valdir Montico, a segunda geração da família que traz como herança o cultivo da fruta, há mais de 30 anos.

Para Valdir Montico, mesmo com a estiagem que atrapalhou a safra e que provocou uma redução de 15%, o ano foi bom para o produtor. O preço oferecido no mercado relativamente esta no patamar desejado, apesar dos produtores questionarem que o caqui é uma das frutas mais baratas no mercado. “Hoje, estamos vendendo de 80 centavos a 1 real o quilo”, conta. A família Montico destina a produção também para o CEASA de Campinas e para os mercados locais. As frutas são embaladas, em unidades e existe também a comercialização a granel, como fazem a grande maioria dos produtores.

Outra família que compõem o fortalecimento do caqui na região de Itatiba e dão a cidade o status de promotora da “Festa do Caqui&Cia”, é a Ortiz, proprietária da Chácara São Sebastião. Há 22 anos, a família de imigrantes italianos se divide entre os pés de uvas e de caqui Rama-Forte. “A gente lamenta somente a estiagem, após a colheita do ano passado. Em função da falta de chuvas e de outras mudanças climáticas, a florada aconteceu mais tarde, porém, a nossa expectativa de é manter a média. O pico da safra da variedade Rama-Forte é o mês de abril, mas é normal colhermos caquis bonitos somente mesmo após a ‘Semana Santa’. A fruta fica até mais doce e bem mais formada”, comenta Diogo Ortiz.

O sabor do caqui é inigualável e a coloração, fantástica. A variedade muito explorada pelos produtores tem a polpa amarela, com sabor adstringente e não possui sementes. A variedade vem se expandido muito na região do Sudeste, principalmente com a planta vigorosa e bastante produtiva. Apesar disso, atende às exigências dos principais mercados e gera lucro para as famílias como a dos Ortiz.

A Safra Boa

De acordo com o técnico agrícola da Casa da Agricultura, da Prefeitura de Itatiba (SP), Sérgio Toledo, hoje a cadeia de produção está bem estruturada e há suporte técnico para os pequenos agricultores, ajudando com informações e promovendo ações conjuntas, como palestras e incentivos para deslanchar o consumo do caqui. Este ano a expectativa é que a colheita alcance cinco mil toneladas, obtidas das pequenas propriedades. “Foram períodos de altos e baixos, mas com crescimento moderado nos últimos anos o caqui acelerou de verdade, aqui. Hoje, o município integra, por causa do caqui, o circuito das frutas. E a intenção é de mais desenvolvimento. Nossa intenção é divulgar as vantagens e os benefícios do caqui. Infelizmente, os brasileiros não têm costume de comer fruta in natura e, principalmente, comer caqui”, avalia José Toledo.

Mesmo com a agricultura familiar, cidades pequenas e pequenos produtores estão contribuindo, e muito, para o crescimento da fruticultura brasileira. Itatiba, hoje faz parte do pólo turístico do circuito das frutas, que também integra cidades como Vinhedo, Valinhos, Jundiaí e Jarinu.

O Caqui faz a festa

Das 65 propriedades rurais itatibenses que cultivam as variedades de caqui Rama-Forte e Taubaté, a maior parte expõem os melhores exemplares da produção na “Festa do Caqui&Cia”. O evento acontece há seis anos no centro da cidade, e traz além do caqui, o “rei” da ocasião, outras variedades de frutas produzidas, como: carambola, maracujá e goiaba. Na festa, também são expostos e comercializados vinhos, cachaças e doces em compota.

Para Carlos Alberto Amaral, Secretário de Cultura, Esportes e Turismo e coordenador da organização do evento, a realização da Festa atrai um público maior da região, favorecendo a venda do produto. “É importante ressaltar, que o conceito do evento, é a valorização do agricultor local”, ressalta. “Os produtores participam da exposição, mas não são todos eles que comercializam diretamente no evento”, explica. Segundo informações da Casa de Agricultura, o evento este ano atingiu a expectativa e vendeu mais de 10 toneladas da fruta.

A família Ortiz é um dos produtores que expõem durante a festa, mas mantém a comercialização na sua propriedade. “Mesmo participando apenas da exposição, a Festa aumenta consideravelmente as nossas vendas”, diz Diogo Ortiz.

José Stocco, que também expõem seus produtos, lembra que nos últimos cinco anos, desde a primeira edição da Festa, as vendas não param de aumentar. “Cultivo caqui, junto de diversas outras frutas, mas nos últimos anos, aumentamos nossa área destinada ao plantio de caqui. Muita gente não conhecia o caqui. Hoje, principalmente por causa da festa, muitos produtores, como eu, ganharam clientes fiéis”, comemora.

Consumo do Caqui

No mercado interno, o consumo de caqui está aumentando progressivamente devido às suas qualidades e preços relativamente acessíveis. Nos últimos anos, houve uma maior procura por frutos de caqui não-taninosos, cujos frutos são de boa consistência, podendo atingir mercados mais distantes e serem cotados com melhores preços. Já no mercado externo, o caqui possui grande aceitação, especialmente no Japão, alcançando preços relativamente compensadores. A colheita do caquizeiro ocorre de fevereiro a junho, com picos de produção nos meses de março e abril.

De acordo com o Food Agricultural Organization (FAO), o Brasil é quarto maior produtor mundial da fruta. A China é o primeiro, seguido do Japão e da Coréia do Sul. Presentes em oito estados brasileiro, a cultura do caqui vem ganhando importância no Brasil, tanto pela área plantada quanto pela diversificação de regiões de plantio, o que tem aumentado as quantidades ofertadas do produto no mercado interno e, graças à organização de produtores, para a exportação. Em algumas regiões produtoras do País onde a colonização japonesa está presente, o caqui é industrializado, sendo usado para preparo de passa e para elaboração de vinagre. A produção de vinagre de caqui apresenta alto rendimento em mosto (sumo) para fermentação, resultando em produto de qualidade muito boa, com aproveitamento dos frutos que normalmente seriam descartados.

Para o consumo in natura, os frutos colhidos da variedade Rama-Forte são levados para as estufas com carbureto, (gás de fruta) e depois para a secagem. Em geral, os caquis são retirados “de vez” (nem muito verdes nem muito maduros) e precisam ser destanizados, ou seja, processo no qual elimina a adstringência, bastante desagradável ao paladar.

Hoje, nas propriedades há pomares onde existem pés entre 25 e 40 anos, mas o trabalho de colheita é mais complicado devido à altura dos galhos produtivos. Em alguns anos, os pés de caqui produzem menos, mas os frutos são maiores e melhores, o que é valorizado no mercado. O caqui é uma planta de clima subtropical ou tempero, mas se adaptou muito bem ao clima brasileiro. É que o diz, os produtores de caqui da cidade de Itatiba.


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