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SAÚDE ANIMAL - REBANHO SAUDÁVEL, BOLSO RECOMPENSADO!
rev 122 - abril 2008

Controle sanitário rigoroso no gado é prática que garante melhor performance no gancho e poucas perdas no campo. A valorização da arroba do boi gordo deu novas perspectivas para a produção, com atenção à alimentação do rebanho e a garantia de um melhor cuidado da sanidade animal. “Sem um manejo sanitário adequado, o produtor não consegue uma boa produtividade, os índices da fazenda vão cair, ele pode perder o gado”, conta o pecuarista Issao Iguma Filho, da fazenda Continental, no município de Caarapó, Mato Grosso do Sul. É nesse sentido que o produtor deve pautar a produção – um planejamento adequado à sanidade do rebanho, para recuperar os melhores índices no resultado

de abate, e aumentar mais ainda a produção leiteira no País.
Uma das maiores preocupações de Issao, na produção de cria, recria e engorda do nelore, é o controle de endoparasitos (verminoses), além de vacinações contra a febre aftosa e doenças reprodutivas. “Na realidade é todo um conjunto de ações que estabelecemos, através de um calendário anual, no qual, todo mês se faz algum tipo de vacinação ou vermifugação com o gado”, explica Issao.

Há 15 doenças específicas na criação de bovinos, segundo a Organização Mundial de Sanidade Animal (OIE). Entre elas, a tricomonose, a campilobacteriose e a tuberculose bovina. Outras 22 doenças são relacionadas a múltiplas espécies de animais, algumas delas, suscetíveis ao gado, como é o caso da febre aftosa e da brucelose.

“Na criação de gado de leite, como existe um contato mais próximo entre os animais, diferente da produção de corte, que geralmente é extensiva, há um risco maior para a tuberculose bovina”, explica Luiz Francisco Zafalon, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, especialista em sanidade animal.

Planejamento sanitário

Dentro desse aspecto, o tipo de produção, seja para o corte, como para o leite, o produtor deverá seguir um planejamento sanitário adequado à atividade. Os cuidados com o rebanho também devem contemplar o tratamento e controle de endo e ectoparasitos, e a raiva, transmitida principalmente por morcegos hematófagos – o controle da raiva deve ser rigoroso, pois é fatal ao gado e ao homem.

Esse programa de sanidade animal estabelece uma estratégia de manejo dentro da propriedade. Nele, a fazenda trabalhará em função de um controle preventivo das doenças, e com o auxílio técnico especializado, o produtor estará atento às enfermidades que ocorrer com o rebanho, e saberão como proceder com o tratamento – o uso e às dosagens corretas de cada medicamento (vacinas ou vermífugos). O produtor também aproveitará melhor as condições de clima e pastagem – que contribuem para o desenvolvimento do animal.

Entre as características do programa, no caso do gado de corte, pode-se destacar a concentração da natalidade do rebanho numa mesma época, em geral, entre os meses de agosto a outubro – para isso, a estação de monta também deverá seguir uma época específica (de novembro a janeiro); as vacinas e a vermifugação têm um período determinado de aplicação – são voltadas à categoria de animais específicas, em termos de idade e sexo.

Já para a criação leiteira, o plano básico para garantir a sanidade dos animais, em termos de vacinação, é contra a febre aftosa e brucelose (obrigatórias por Lei), e contra a raiva e o carbúnculo. “No caso das vacinas contra raiva e carbúnculo, elas não possuem um caráter de obrigatoriedade, mas, de certa forma são impostas para que se garanta a produtividade e qualidade no rebanho”, explica o médico veterinário da Embrapa Gado de Leite, Antônio Cândido Ribeiro. “Se houver a necessidade de aplicação de demais vacinas, com o aval de um técnico especializado, a aplicação será bem-vinda”, conclui.

Auxílio técnico é a saída

A real preocupação, como destacam Ribeiro e Luiz Francisco Zafalon, é a necessidade de um acompanhamento técnico especializado no controle sanitário da fazenda – na identificação das doenças, na prescrição de medicamentos eficazes, para o melhor desempenho da atividade, sem perda de gado e de dinheiro. “É comum o produtor enxergar a assistência técnica com uma despesa, pela falta de visão e de informação”, diz Ribeiro. “Muitas vezes, ele compra um medicamento, e não sabe muito bem para que serve ou se é eficaz no tratamento do rebanho dele. O balconista que o atende também não conhece o produto. O produtor aplica o produto, não dá certo, e aí o controle da doença torna-se mais caro, e diz que não consegue obter rendimento na produção”.

“O importante é que o produtor, principalmente o pequeno, se conscientize sobre a questão sanitária e noções de higienização”, adverte Zafalon. “Pois, se não existe uma preocupação em lavar as mãos antes de se ordenhar uma vaca, por exemplo, como ele vai ter a preocupação em lavar as tetas das vacas antes da ordenha”.

Com a adoção do planejamento sanitário, o produtor terá maior controle e poderá acompanhar desenvolvimento do rebanho, do nascimento à fase adulta, reprodutiva. Segundo Zafalon, o produtor deve começar esse trabalho de sanidade animal com o corte e a cura do umbigo. Esse procedimento evita contaminações por agentes infecciosos do meio externo, e se não tratado pode causar infecções generalizadas no bezerro. E com todos os exames do gado em mãos, é possível trabalhar de forma com que o aparecimento de doenças seja controlo.

Febre Aftosa

Se há um mal que mais pode abalar a economia da pecuária no País, na certa é a Febre Aftosa. A doença acomete em animais fissípedes (que têm os cascos partidos), é extremamente contagiosa e é causada por um vírus. No animal apresenta-se como uma febre alta e feridas na boca e nos cascos.

Devido ao alto poder de contágio entre os animais e a importância econômica para muitos países, a Febre Aftosa é a primeira doença na lista de endemias da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), a qual estabelece oficialmente os países ou zonas livres da doença.

Em 30 de setembro de 2005, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Mina Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Sergipe tiveram a suspensão do status de zona livre de Febre Aftosa com vacinação. Isso ocorreu devido à notícia de um foco da doença em Mato Grosso do Sul. De acordo com o IBGE, logo após a constatação, o governo daquele estado liberou portaria considerando os municípios de Eldorado, Itaquirami, Iguatemi, Mundo Novo e Japorã, como áreas de risco sanitário. A descoberta do foco provocou o isolamento sanitário destes cinco municípios, sendo proibido o trânsito de animais de qualquer natureza dentro deles e também entre eles, assim como de sub-produtos de origem animal.

Já em 21 de outubro do mesmo ano, sob suspeitas de foco no Paraná, foram suspensos como zona livre de Febre Aftosa os estados do Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, e o Distrito Federal. [confira no mapa, como está a situação da doença na América do Sul, segundo dados da OIE.

O controle da doença é feito através de vacinação obrigatória em todo rebanho, independente de idade – o calendário de vacinação é determinado pela secretaria de agricultura e pecuária de cada estado.

Santa Catarina é o único estado do País que possui a certificação de zona livre de Aftosa sem vacinação. Já, com vacinação, estão certificados os estados do Acre (incluindo dois municípios do Amazonas), Rondônia, Rio Grande do Sul e a porção centro-sul do Pará.

“Velhas, e indesejáveis, conhecidas do produtor”...

Botulismo

É causada por uma toxina de uma espécie de Clostridium e que ataca o sistema nervoso dos animais. Essa toxina pode estar presente na medula de ossos de carcaças nas pastagens, em águas estagnadas e em cama de aves. A vacinação contra essa doença é feita quando ocorrem surtos na região. É uma vacina aplicada somente em animais acima de um ano de idade. De uma forma geral, recomenda-se o uso de duas doses iniciais com 4 a 6 semanas de intervalo e a seguir uma dose anual em todo o rebanho.

Brucelose

Doença bacteriana que interfere na reprodução, provocando aborto. Essa doença, além do prejuízo econômico, pode ser transmitida ao homem. A vacinação contra ela está se tornando obrigatória em vários Estados brasileiros. Ela é feita em dose única e somente em fêmeas de 3 a 8 meses de idade. É recomendável que se faça um teste de soro a partir de 24 meses. A brucelose é uma zoonose muito importante, por afetar o homem. É de caráter crônico, e pode causar artrite e inflamação dos testículos, por exemplo.

Campilobacteriose

É uma doença causada pelo agente Campylobacter fetus venerealis, normalmente transmitido pelo touro contaminado, no momento da monta. Essa bactéria pode causar infertilidade temporária e morte embrionária precoce. Os touros positivos, identificados pelo exame laboratorial, podem ser eliminados do rebanho em função do diagnóstico da situação.

Clostridiose

Das clostridioses que acometem os bovinos, a mais importante no Brasil é o carbúnculo sintomático. É uma doença típica de animais jovens (até 2 anos). Para sua prevenção, utilizam-se as vacinas polivalentes, isto é, que dão imunidade também contra outros tipos de clostrídios. Quando se utiliza a vacina polivalente, a aplicação é feita no pré-parto, ao nascimento, à desmama e aos 12 meses de idade. Nos animais adultos ela é aplicada uma vez ao ano.

IBR, BVD, PI3 e BRSV

São viroses comumente associadas com doenças respiratórias e perdas reprodutivas em bovinos. A prevenção contra essas doenças é feita com vacinas polivalentes, ou seja, existem vacinas para todas elas em conjunto. A vacinação é feita aos três meses de idade, com reforço 30 dias após, com revacinação anual em dose única.

Leptospirose

É uma doença de distribuição mundial, sendo mais freqüente em áreas de clima quente e úmido. Essa doença é uma zoonose, isto é, pode ser transmitida ao homem. No bovino, a importância da doença é mais de ordem econômica, por influenciar o potencial reprodutivo do rebanho. No homem, porém, ela pode ser fatal. O tratamento no gado é feito por vacinação, sendo a primeira dose aplicada entre 4 a 6 meses de idade, com reforço quatro semanas após. Todo o rebanho deve ser vacinado semestralmente.

Pasteurelose

É uma doença infecciosa aguda, que causa febre, perda do apetite, diarréia sanguinolenta e prostração. Essa doença pode ser evitada por vacinação, que é feita juntamente com a do paratifo (vacina polivalente). Sua aplicação se faz também no pré-parto e no bezerro entre 15 e 30 dias de vida.

Raiva bovina

É uma doença causada por um vírus e transmitida por morcegos hematófagos. É de extrema importância o controle, pois é fatal tanto para o homem e o gado. A vacinação contra essa doença só é feita em regiões onde existem colônias permanentes de morcegos sugadores de sangue. A vacinação se torna obrigatória quando aparecem focos esporádicos da doença em certas regiões. A aplicação da vacina é anual e feita em todo o rebanho, independentemente de idade.

Salmonelose

Essa doença, também chamada de paratifo, é mais comum em animais jovens. Ela provoca enterite (inflamação intestinal), acompanhada de diarréia, febre alta, descoordenação nervosa e morte em 24 a 48 horas. Embora os animais doentes respondam bem ao tratamento com antibióticos, a doença pode ser evitada com vacinação. A vacina é aplicada na vaca no pré-parto (8o mês de gestação) e no bezerro entre 15 e 30 dias após o nascimento.

Tricomonose

É contagiosa e sexualmente transmissível, causada pelo Trichomonas foetus, que pode ocasionar a morte embrionária precoce, com repetição de cio a intervalos irregulares, abortos, além de infecções após a cobrição. O touro é um foco de infecção importante, principalmente os mais velhos, por alojarem o parasito nas lâminas prepuciais e, de forma geral, sem apresentar sintomas clínicos evidentes. O controle pode ser feito por tratamento individual dos touros positivos, porém o custo é elevado. O descarte dos touros infectados, reconhecidos por exame laboratorial, como também dos touros mais antigos é uma alternativa de controle.

Tuberculose

O diagnóstico é feito por meio do teste de tuberculinização – uma vez contaminada, a rês tem de ser abatida. Em bovinos de corte e de leite, o teste é feito com a aplicação de tuberculina PPD bovina em animais de idade igual ou superior a seis semanas de vida. Os animais positivos são eliminados do rebanho. Animais reagentes positivos deverão ser isolados de todo o rebanho e sacrificados no prazo máximo de 30 dias após o diagnóstico, em estabelecimento sob serviço de inspeção oficial, indicado pelo serviço de defesa oficial federal e estadual. Na impossibilidade de sacrifício em estabelecimento sob serviço de inspeção oficial, indicado pelo serviço de defesa oficial federal e estadual, os animais serão destruídos no estabelecimento de criação, sob fiscalização direta da unidade local do serviço de defesa oficial, respeitando procedimentos estabelecidos pelo Departamento de Defesa Animal.

Ecto e endoparasitos

Os principais ectoparasitos de bovinos no Brasil são os carrapatos, os bernes e a mosca-dos-chifres. Só é recomendável combater esses parasitos quando as infestações forem altas. Isso ocorre mais nos meses de verão. O tratamento aos endoparasitos são durante os meses de seca (maio, julho, setembro).

Mosca-dos-chifres - (Haematobia irritans). O controle químico tende a perder eficiência com o tempo, por causa do estabelecimento de resistência das moscas aos inseticidas e, como resultado, esse número tenderá a aumentar. Como medida de controle biológico auxiliar, a introdução do besouro africano (Onthophagus gazella), o rola-bosta, tem se mostrado eficiente na contenção da propagação da praga, pela destruição dos bolos fecais onde se alojam as larvas da mosca. Tratamentos eventuais, com inseticidas, podem ser efetuados sempre que a infestação (mais de 200 moscas) incomodar os animais.

Carrapato - (Boophilus microplus). Além das ações irritante, hematófaga (alimenta-se do sangue) e tóxica (inoculação de toxinas), o carrapato pode transmitir dois gêneros de agentes infecciosos: a rickettsia Anaplasma sp. e o protozoário Babesia sp., responsáveis pela doença denominada de “tristeza parasitária bovina” (TPB). A TPB se manifesta, clinicamente, por febre, anemia, hemoglobinúria, icterícia, anorexia, emaciação e alta mortalidade entre bovinos sensíveis. Outro dano direto produzido pelo carrapato são as lesões que provocam no couro, que acarretam na depreciação da qualidade do couro e representam um sério entrave à comercialização desses produtos. O controle do carrapato nos bovinos, com produtos químicos, deve ser realizado estrategicamente a partir de setembro (início das chuvas). Repetir o tratamento de 5 a 6 meses, com intervalos de 21 dias. Tratamentos eventuais devem ser feitos quando o número de carrapatos, por animal, for maior que 25, em cada lado.

Programa ajuda produtor a identificar doenças

E se houvesse uma forma na qual o produtor pudesse tomar conhecimento técnico sobre as doenças e as formas de tratamento tanto na agricultura como na pecuária? Foi justamente a partir dessa indagação que Embrapa Informática Agropecuária desenvolveu o programa Diagnose Virtual, que servirá com uma espécie de ponte entre o pesquisador e o produtor. “A idéia é poder disponibilizar o conteúdo de publicações, desenvolvidas pela equipe da Embrapa, aos produtores, com o objetivo de informar as possíveis soluções de controle de doenças na fazenda”, explica da pesquisadora da unidade Silvia Maria Fonseca Masshurá.

O programa, que será acessível pela Internet, possui duas interfaces, segundo Masshurá. A primeira é destinada aos pesquisadores da Embrapa, para inserirem todo o conteúdo – o material que servirá para o diagnóstico do problema. A segunda é voltada aos próprios produtores – através de um método de perguntas e repostas, que ao final, dará às possibilidades do que ocorre na produção específica, além do tratamento recomendado.

“Iniciamos o projeto apenas com informações sobre a cultura do milho, e o próprio fitopatologista ficou incerto se realmente funcionaria o sistema, se haveria retorno”, conta a pesquisadora, que encabeçou o desenvolvimento do projeto. “Depois de publicado o conteúdo, muitos começaram a ligar e entrar em contato com o próprio pesquisador. O programa serviu como ponte para as pessoas procurar mais informações, e ajudou o pesquisador, no sentido de promover treinamentos, bem como na investigação de mais dados sobre a doença”.

Por enquanto, a ferramenta está voltada à agricultura, especificamente, para as culturas de milho, feijão, tomate, trigo e soja. O programa, oficialmente reestruturado, estará brevemente está on-line, o poderá ser acessado a partir do site da Embrapa Informática Agropecuária [www.cnptia.embrapa.br].

Para o segundo semestre deste ano, começarão a ser incluídas as referências de doenças voltadas à pecuária. Uma ferramenta útil, que os produtores poderão ter acesso na própria fazenda, ou em cooperativas – onde houver o acesso à Internet.


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