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QUEIMADAS - É preciso qualificar os trabalhadores para evitá-las!
rev 122 - abril 2008

Processo de profissionalização do setor passa também pelo fim das queimadas e o fim do corte manual da cana.

Fornecedores do setor sucroalcooleiro e o governo do estado de São Paulo assinaram, no dia 10 de março, o Protocolo Agroambiental. O documento limita para 2014 a prática das queimadas nos canaviais paulistas. Essa medida é de cunho social e principalmente ambiental.

O corte manual da cana é muito desgastante e há cerca de sete mortes de trabalhadores por ano devido ao excesso de esforço físico. Já as queimadas, emitem cerca de 2.852 quilos de gás carbônico para produzir mil litros de etanol (álcool combustível).

Para efeito de comparação, quando os mil litros são consumidos pelos carros, é dissipada quase a metade, 1.520 quilos de CO2.

Hoje em dia, as usinas e os produtores estão diminuindo a quantidade de plantio manual e adquirindo novas máquinas para o trabalho no campo. Atualmente, “não tem mão-de-obra suficiente, tem que pegar 40% de fora do estado”, afirma Antônio de Pádua Rodrigues, Diretor Executivo da ÚNICA (União das Indústrias de Cana-de-Açúcar).

A transformação da mão-de-obra é lenta, já que a plantação dura de quatro a cinco anos e é no momento do plantio que o produtor escolhe se usará máquina ou não.

Apesar da maioria das usinas terem se comprometido (141 das 170 existentes em São Paulo), algumas só deixarão as queimadas quando a lei obrigar. Em 2021 será proibida a prática. Até lá, os agricultores vão se adaptando, mas e os trabalhadores rurais?

“A mecanização é um ganho ecológico, social e também para a usina, mas não é só isso. O trabalhador está sabendo o que está acontecendo”, afirma Sidnei Augusto Colombo, Proprietário Usina Colombo, se referindo que os bóias-frias sabem que o futuro deles caminha para o desemprego.

A sociedade condena as queimadas por três razões: esforço desumano do trabalhador; fuligem que atinge os trechos urbanos e; poluição do ar que pode causar doenças respiratórias. As usinas também perceberam que a colheita por máquinas é mais rentável. Com isso, a tendência é de aumento da mecanização e fim das queimadas antes do previsto.

Mas o assunto não é simples assim. “Hoje nós temos 180 mil plantadores”, diz Antônio de Pádua Rodrigues, Diretor Executivo da ÚNICA (União das Indústrias de Cana-de-Açúcar). E continua: “é uma questão inevitável. De um lado tem uma legislação e você tem que eliminar a queima da cana por razões ambientais. Se isso é o que a sociedade quer. Depois vai ter que resolver o problema social”, completou Pádua.

Hoje os produtores têm falta de mão-de-obra para o corte do canavial, mas para os próximos anos a tendência é a inversão. Os agricultores estarão atrás de trabalhadores qualificados para operar as colheitadeiras e não precisarão dos cortadores manuais. “O que a gente percebe é que ao longo do tempo a mecanização depende de mão-de-obra qualificada. E uma mão-de-obra qualificada é difícil”, afirma Colombo. Se hoje esse tipo de trabalhador é escasso, em cinco anos deverá ser ainda pior.

A tendência é diminuir os postos de emprego dos cortadores e abrir para operadores de máquina. “Fecham oito portas para trabalhadores desqualificados e abre uma para um super qualificado”, aponta Humberto César Carrara Neto, Gerente Agrícola da Usina São João.

“Nós temos que pensar e tomar mais cuidado. Não adianta falar em evitar a queimada e aumentar o desemprego”, afirma Colombo. A questão é para onde vão os 180 mil trabalhadores. Qualificar o bóia-fria é uma opção. “Na verdade a gente tem que ir tentando transformar o trabalhador para ser operador de máquina, mecânico, e outras atividades”, afirma Colombo. A mecanização deve gerar setenta e duas mil vagas nos próximos anos, segundo o diretor da ÚNICA.

Mesmo qualificando os trabalhadores, há um déficit de 108 mil vagas. Os especialistas não encontraram saídas para empregar tanta gente. “O governo, a prefeitura, sindicato é que vão ter que empregar esses trabalhadores”, alerta Pádua.


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